Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Voltamos em breve


Pessoal, ando me recuperando do quarto (quarto? Já ando perdendo as contas) acidente automobilístico do ano. Volto assim que a cabeça desinchar e o meu olho direito voltar a enxergar sem o auxílio de colírio a cada 15 minutos.



E um conselho, se for dirigir não beba. Se for pegar carona, pega com quem não bebeu.



Salut!


Yo no me he tomado
Pero me voy a tomar un traguito ahora
Y se que lo que mas espero
Lo mas que se me enamora...

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

A Carta - Capítulo 7

Ok, atraso. Peço desculpas, mas nem cola, eu sei. Atraso toda semana. Pelo menos nessa eu tenho desculpas, um congresso, curso, acidente automobilísitico (o terceiro do ano, me lembrem de nunca mais andar de carona em 2009).
Mas taí, atrasado, escrito às pressas, mas taí! No mesmo bat horário, no mesmo bat canal.

Sete - O dia em que Lúcia me deixou

Ana;

Morremos um pouco todos os dias e, estranhamente, continuamos respirando. Eu poderia supor que morreria um pouquinho hoje mesmo, mas não... Sabe, a minha vida não é a mais empolgante das vidas. Não pulo de asa delta ou defendo réus, nem mesmo salvo vidas em um hospital calmamente branco, não. Traduzo livros. Eu poderia deixar uma cópia do meu último trabalho de presente se o autor não fosse péssimo. O engraçado é que anda vendendo bastante. Talvez até você já tenha lido, quem sabe? Mas não é sempre assim? Sempre os piores autores são os que vendem mais, Dan Brown, Paulo Coelho... E o que importa? Como dizia, o importante é que não morri mais. Desde a sua primeira carta, ando curioso, interessado demais pra morrer, por um simples motivo: não sei nada de você.

Além do nome, do Ana, do anagrama, quem seria você?

Pode ser ousadia, querer te decifrar em duas cartas, mas não acredito que você leia livros ruins, ou ouça música ruim. Imagino seu apartamento organizado, limpo. Te imagino confusa.

Li sua segunda carta me perguntando onde estava a agonia da primeira, onde foram parar os palavrões, o desespero de quem fez algo terrível. Onde andariam os seus pecados?

Ana tão discreta, Ana tão silenciosa, Ana tão misteriosa.

Proponho um jogo, levantaremos o véu. Já confessei um dos meus pecados e ainda não sei nada dos seus. A partir de agora a cada pergunta, a cada segredo revelado você me conta algo seu, só seu, que ninguém mais saiba. Algo que ficará só entre nós dois, Pedro e Ana, ilustres desconhecidos.

Não podemos perder tempo Ana, o tempo corre. Então lanço os dados, aperto start e o jogo começa.

Você se perguntou se eu já morri um pouco. Então eu te conto como foi, o que senti, como foi o dia em que realmente morri. Como foi o dia em que Lúcia me deixou.

O nome apareceu na tela do celular.

_Môr?
_Pê...

Foi assim, por telefone. Três anos de vida comum jogados no lixo, sem grandes explicações, sem nada. “Preciso de um tempo. Não ta dando mais”.

Quando cheguei em casa o armário estava mais vazio, a estante de livros mais vazia, o apartamento mais vazio. Vazio. Talvez seja essa a palavra que melhor resume a sensação de ser abandonado. Aliás, talvez o abandono aconteça em três etapas; antes de a pessoa te deixar, quando ela pode ou não sinalizar que tudo vai mal; o durante, quando ela dá alguma desculpa pra justificar o fato de que você já não tem mais graça, já não faz mais sentido; e o depois, quando você fica pensando em tudo que rolou durante todo o tempo em que vocês estiveram juntos, em tudo que foi bom, em tudo que deu errado, nas coisas que ela te disse e na resposta babaca que você deu. A melhor parte, na maioria das vezes, é a sua resposta babaca. Porque ela tende a ser tão babaca, mas tão babaca, que você fica dias pensando que poderia ter dito algo diferente. Quem sabe se eu tivesse dito um palavrão, se eu fosse menos previsível, se eu tivesse declamado um poema, se eu tivesse chorado, se eu tivesse, se eu tivesse, se eu tivesse... Quem sabe ela ficava? No meu caso eu simplesmente disse

_Ok.

E nunca mais nos falamos.

Impossível alguma palavra ser mais babaca que um “ok”. Ou talvez não. Eu, estúpido, achava que tudo andava bem. Aquele dia ela acordou cedo e me deu um beijo. Eu tinha uma reunião na editora. Discutiríamos agendas, projetos futuros e os malditos prazos. Lúcia sabia e tinha tudo planejado. Eu a imagino cronometrando meu percurso, enquanto eu entrava no elevador ela tirava as malas de cima do armário, enquanto eu ligava o carro ela separava os livros, enquanto eu parava no semáforo ela dobrava as roupas, antes mesmo de eu chegar na sala de reuniões ela já ligava para o táxi e enquanto eu fingia prestar atenção em tudo que diziam, ela já estava a caminho da casa de alguma amiga, dos pais, do amante.

Um amante? Será? Meus amigos, se é que poderiam ser chamados de amigos, me disseram: ela deve ter outro. Quando é assim, elas sempre têm. Tudo bem, pelo menos teria alguma explicação. Me pergunto se ela chorou, se sofreu. Imagino que sim, porque Lúcia é uma romântica. Acho que ela sofreria por reflexo, de tanto assistir comédias românticas. Meg Ryan, McDonald’s. Pois é. De tanto assistir a comédias românticas a pessoa se sente obrigada a sofrer, ao menos um pouquinho. Eu realmente espero que ela tenha sentido dores, convulsões, caído em prantos, tremido, suado, vomitado algumas vezes antes de fazer as malas e me deixar nesse inferno solitário e sem graça chamado “meu apartamento”. “Nosso apartamento” soava tão mais simpático... Se ao menos ela tivesse dado um sinal, alguma coisa, eu teria me preparado, talvez eu a deixasse e não o contrário. Talvez seria Lúcia quem ficaria por horas de pé na varanda, fumando um cigarro atrás do outro, ouvindo Cole Porter, tentando não chorar. Passei a noite inteira ali, devorando meus cigarros, até amanhecer, até o sol subir, até ficar de saco cheio e finalmente ir dormir pra acordar na cama vazia, tão mais... Morto?

O desafio está lançado, Ana.

Aguardo resposta em uma semana.

Beijos;

Pedro.

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

A Carta - Capítulo 6

Intróito: uma confissão do autor
Esse nosso (meu, da Clara e seus) folhetim -bloguetim?- é uma surpresa constante pra todos os envolvidos porque, simplesmente, não existe roteiro. A Clara e eu escrevemos o que queremos sem que o outro seja consultado e é postado dessa forma, in natura. Por isso arregalei os olhos quando li o nome da personagem, "Ana". Eu já tive uma Ana em minha vida que, confesso, "já me fez morrer um pouco". Por isso é um nome que um personagem meu jamais teria. Embora em mim permaneça por ela um carinho grande, eu não quero que ela se leia nos meus escritos. Mas o texto e a personagem são da Clara e, assim, li com olhos novos, sem que Ana, Ana fosse.
E achei lindo.
Fica a certeza, nem todas as mortes são ruins.
.
.
.
Seis - Ana
Sabe, suas palavras me fizeram morrer um pouco. Mas não se assuste. Nem todas as mortes são ruins.

Já morri algumas vezes pelas mais diversas causas. Talvez só tenha aprendido a viver quem admite uma morte ou outra. Pensei isso agora e me pareceu muito certo. Minhas mortes me fazem pensar, Pedro. E agora penso que gosto do seu nome porque é simples e ao mesmo tempo pesado. Duas sílabas que parecem feitas de chumbo, mas bonitas para se falar.

O meu é Ana. Uma coisa que gosto nele é que de trás pra frente a pronúncia não muda. É um nome que dá voltas nele mesmo, como um gato que brinca com o próprio rabo. É um nome pequeno, mas que não possui um início ou um fim. Ele todo é um círculo.

Mas voltando a você: seus pecados têm sim um tamanho. Não me cabe medi-los, mas posso dizer que apesar de caberem em uma página, eles foram além delas. Penso neles agora, e quando encontrar um cachorro, estranhamente lembrarei de você. E que engraçado! Você poderia estar parado ao meu lado que não poderia te reconhecer enquanto pensasse no seu segredo.

Pedro, as suas palavras me mataram um pouco, mais isso não se trata de mais um pecado seu. Ele é meu, agora. Como um padre que ouve uma confissão e não pode fazer mais nada a não ser compartilhá-lo.

Você disse uma coisa. Disse que na época achava que era feliz. E sabe, Pedro, eu tenho certeza que você era. Porque quando somos felizes, não ligamos muito para a morte. Talvez por isso você não tenha sentido pena. Porque sua felicidade te protegeu da sua consciência.

Às vezes tenho medo das pessoas felizes. Elas podem ser horríveis.

Pois bem, você era feliz, Pedro. Mas agora... agora não sei dizer. Talvez você também tenha morrido um pouco. Como eu, como o cachorro. Sua carta parece confessar isso – além do crime. Estou certa?

.

Quando encontrei a tua carta, corri com o envelope nas mãos como quem foge do próprio corpo. Porque senti uma vergonha, mas uma vergonha muito honesta, como se houvesse cometido um crime bem intencionado (tenho certeza que eles existem aos montes). Mas ao mesmo tempo senti medo do que pudesse ler. E de fato, li uma coisa horrível, mas que me traz uma certeza de certa forma, bonita:

Todos nós morremos às vezes, Pedro. Eu, você, o cachorro... Mas ao contrário dele, continuamos estranhamente vivos. E não podemos nos esquecer disso.

Com os cumprimentos de uma pessoa que respira,

Ana

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

A Carta - Capítulo 5

Cinco – O dia em que a tinta encontrou o papel

09 de agosto

Faz frio.

Não acho que você acreditaria que por todo esse tempo eu deixei sua carta guardada, inviolada, no fundo de uma gaveta. Só fui abrir agora, de madrugada, no último dia do prazo, impulsionado por uma garrafa de conhaque que já passou da metade e deixa minha caligrafia já torta ainda mais torta. Ignorar uma carta fechada vai contra a natureza humana, é inexplicável eu sei. Mas me redimo. E escrevo.

Não sei o que esperava ao abrir a carta. Uma carta de amor? Meg Ryan, McDonalds? Talvez. Talvez uma confissão, um pedido de desculpas. Notícias daqui para algum lugar distante. Nunca imaginei uma carta para ninguém. Ou, melhor, uma carta para mim?

Passei os primeiros minutos olhando para o papel, imaginando como escrever para uma completa desconhecida e descobri que só há uma única alternativa: ser absolutamente sincero.

Não. Eu não sou uma boa pessoa. Não que eu seja um criminoso contumaz ou um sociopata, nada tão digno de nota. Não sou louco. Ou talvez seja, afinal. Se não o fosse eu estaria escrevendo para alguém que não conheço, às 3 da manhã, ainda quando essa pessoa, com algum remorso, diz: “ontem fiz uma coisa terrível”?

Abramos pois a caixa de Pandora. Vou lhe confessar um crime, nada, nada fácil de confessar, especialmente para quem sentiu tamanha compaixão por um vira-lata imundo.

Há alguns meses, uns dois ou três meses, eu vinha do centro para casa, o som do carro ligado, ouvindo Coltrane. Sabe, nessa época eu tinha alguém, digo, vivia com alguém, uma mulher. Acho que eu era feliz.

Era noite e eu levava comida chinesa para casa –ela adorava comida chinesa. Foi quando eu senti um tranco, toda a comida dançou pelo carro, sujando os bancos, minha roupa. Uma bagunça. Pelo retrovisor, enquanto eu limpava o yakisoba ainda quente do nariz, olhando todo a sujeira espalhada dentro do carro, imaginando o estado do meu pára-choque, eu vi um cachorro, um vira-lata, talvez irmão do seu vira-lata imundo, esticado no chão, se arrastando devagarinho até parar, morto.

Não me perguntei como pude não ver o animal, não senti pena, senti raiva. Fiquei quase alegre ao vê-lo ali, inerte, sem respirar. Me senti vingado.

Não. Quem te escreve não é uma boa pessoa.

Como você bem disse, todos nós fazemos coisas terríveis. Os seus pecados não podem ser tão grandes assim.

Semana que vem vou ao parque, espero que você não assuste e que eu encontre outra carta ao pé do banco.

Com os cumprimentos de uma pessoa sã;

Pedro.

P.s.: detesto Woody Allen.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

A Carta - Capítulo 4

Quatro – Agosto

Ainda em julho invadi o apartamento com a carta em mãos, imaginando o que fazer. Como não sabia e não queria atravessar dilemas morais sobre abrir ou não o envelope, violentar ou não violentar aquelas letrinhas, joguei a carta no fundo da gaveta e esqueci. E como não prestava atenção, ela não existia.

Confesso que nos primeiros minutos, nos primeiros dias, sofria daquele comichão de curiosidade que quase tira o sono da gente. Uma ou duas vezes, levantei da cama de madrugada para finalmente abrir a carta com cuidado, de forma que, se o que estivesse ali escrito fosse realmente importante, a confissão de um criminoso ou um mapa de um tesouro, eu poderia fechá-lo com cola e ninguém perceberia. Simplesmente incineraria o documento e dormiria sem medo, seja do criminoso ou do pirata. Por essas vezes o sono foi mais forte e sem sair do quarto voltei para cama. A carta incólume.

Naquele mês eu tinha certa pressa. O livro novo de um autor inglês de mistérios andava estourado no mundo inteiro, vendendo milhões, como se as pessoas ainda se ocupassem em ler. Meus prazos andavam no limite e eu não conseguia trabalhar. Tudo era Lúcia, Lúcia, Lúcia e um tantinho de solidão que invadia o apartamento cada vez maior. De dia as paredes alargavam tremendamente, me afastando de tudo, um ponto escuro em meio ao infinito branco, tristíssimo. À noite, batido e machucado, as paredes fechavam, surgia o misterioso cheiro de alecrim e eu era claustrofóbicamente sufocado até dormir um sono bêbado, tranqüilo, terapêutico, sem sonho algum. No dia seguinte acordava e tudo começava de novo.

Minha cara branca andava cada vez mais branca, meus olhos fundos cada vez mais fundos. A barba eu não fazia há tempos e o cabelo necessitava de corte, mas eu já começava achar charmoso meu visual deprê-largadão. Escolhia um disco com cuidado, acendia um cigarro e sentava no sofá, dedicado a bolar um plano mirabolante para ter Lúcia de volta. Pode soar absurdo, mas digo que eu era até mesmo feliz no sofrimento. No fundo eu curtia aquilo. E ia curtindo. Até o telefone tocar.

Não, não era Lúcia. Uma editora preocupada perguntava do trabalho e, como sempre, menti. Tudo ótimo, no prazo, sem problemas. Foi o caos. Trabalhei dobrado, virei noites, mal comia. Posso dizer que por vários dias nem banho tomei. Vivi quinze dias de puro torpor, não sentia cansaço, não sentia nada. Só via as centenas de páginas mal escritas pelo famosíssimo autor inglês de livros de mistério.

Trabalho pronto, entregue, cheque depositado. Quis sair pra comemorar, mas desisti. Sou de ir sempre para os mesmos lugares e dava uma certa preguiça, não queria ver ninguém. Tampouco queria conhecer algum lugar novo. Dei uma volta e comprei um livro que andava querendo ler a algum tempo. Voltei para casa, escolhi um disco, acendi um cigarro, abri o livro. Estava lendo, distraído, e quase não percebi. Talvez pudesse ter lavado a louça, escrito um poema e não iria perceber: as paredes fechavam aos pouquinhos. Alecrim. Deus, Lúcia retornava.

Imagino a cena no cinema. Tudo passando rápido demais, propositalmente acelerado. A garrafa se abrindo, uma, três, cinco doses, a mão abrindo a gaveta, as mãos abrindo o envelope e imediatamente eu estava aqui, a carta em mãos, lia a assinatura. “A.”

Uma carta para ninguém. Ou para todo mundo. Quem seria “A.”? Alguma louca, certeza.

Fazia exatamente um mês que encontrei o envelope lacrado, caído no chão do parque, sem nomes, somente endereços e CEPs de lugares que, provavelmente, não existiam. Olhei o relógio: duas da manhã. O parque abre as 7. Eu tinha cinco horas para escrever, andar oito quarteirões e deixar minha resposta no lugar combinado.

Era certo que eu responderia a carta. Como resistir? Pensei em armar tocaia, esperando ela –só poderia ser ela, a caligrafia denunciava- aparecer para pegar a carta e desvendar o mistério. Mas sem mistério qual a graça?

Tive idéias malucas sobre como seriam nossas correspondências. Faríamos assim: não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não nos veríamos. Ficaríamos íntimos. Trocaríamos cartas falando das nossas vidas, oi meu bem, como foi seu dia? A noite inteira debruçados sobre o papel, lendo, rindo, escrevendo. Eu tentando parecer inteligente, ela cada vez menos cínica, se mostrando sensível, um senso de humor agudo. Dali a pouco nos apaixonaríamos perdidamente. Primeiramente seria um amor platônico, ridículo, inconfesso. Quando o peito não agüentasse mais, tremendo, eu iria, de caneta nova, as letras trêmulas, rabiscar as palavras: te amo. Te amo. Te amo. Talvez eu arriscasse até um poema. Minhas unhas roídas de esperar o dia certo para buscar a carta no parque, andando pra lá e pra cá, a sola do sapato marcando o mogno velho do piso. Fumaria incessantemente, o conhaque circulando no copo manejado por mãos nervosas. Finalmente chegaria a carta esperada. O papel perfumado diria ‘te amo também’. Então eu iria comemorar as letras redondas, com o pézinho do ‘a’ sempre puxado no final das palavras. Enviaria um CD gravado com músicas que lembrariam nós dois e a nossa relação maluca. Dentro do envelope uma mecha de cabelo. Mas, ainda assim, não nos veríamos. Não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não poderíamos permitir que um penteado errado, um gesto brusco, uma manhã de mau humor estragasse o que seria tão perfeito. Nos imaginaríamos sem falhas, sem sotaques absurdos ou vozes desafinadas. Passaríamos as noites aflitas, as mãos entre as pernas, cultivando o desejo das línguas por nossos corpos, do cheiro do sexo, das mãos que bailariam, obscenas. Sentiríamos falta naquela noite fria, carente. Tomaríamos sorvete sozinhos, iríamos sozinhos à pizzaria, pediríamos um chope. Sozinhos. Eu iria imaginar os olhos grandes, a boca pequena, os cabelos castanhos e encaracolados caindo sobre os ombros. Ela iria fantasiar comigo a acordando pela manhã, beijando seus seios. Minha barba mal feita arranhando de leve a pele sensível. Ela perdida nos meus olhos fundos. Não trocaríamos fotografias, não poderíamos. Não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não nos veríamos. Não poderíamos estragar o que seria tão perfeito.

Eu andava cada dia mais patético.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

A Carta - Capítulo 3

Ok, pessoas: atraso. Natural partindo de mim.
Esse nosso folhetim foi originalmente programado para ser escrito por duas mãos. Uma minha -óbvio-, a outra da Helena, figurinha adorável do sul do país que por levar uma vida de abusos (jornalista, doutoranda, professora universitária... vida?) desapareceu e encontra-se inacessível. O que fazer? Simples, recorra a uma outra escritora tão talentosa quanto: Clara Mazini, carioca da gema de quem sou fã assumido. E eis o resultado.
Às duas inspiradas (e inspiradoras), talentosas, lindas -e pra casar- escritoras (a Lê já ta casando), meu muitíssimo obrigado. Pra vocês, leitores (mais de três!), a tão esperada (?) carta:

Três – A carta

, eu não sei como começar isso. com letra maiúscula não pode ser, porque milhares de coisas já passaram pela minha cabeça e não sei qual veio primeiro. não faz sentido determinar uma hierarquia das letras por causa de uma pontuação. o pensamento sempre vem primeiro que a gramática. bom, vou escrever com letras maiúsculas o que eu achar que merece.

realmente a denise está certa, adoro dar explicações da minha vida. acabei de começar essa carta explicando o porquê de começar uma carta – e a maldita vírgula. realmente dou explicações da minha vida pra todo mundo. ontem mesmo, com aquele mendigo meio caricato que fica pedindo dinheiro no sinal da avenida osvaldo cruz... ao invés de dizer “não” comecei com o discurso “ah, eu tô totalmente dura. vou ter que pegar um ônibus porque só tenho o vale, e ele já ta acabando, por sinal”. ENFIM, chega disso.

acho que vale a pena dizer agora que... essa carta poderia ser pra qualquer um. aposto que você imaginou que se tratava de um bilhete romântico or something, né? mas nós somos contemporâneos demais pra isso. achamos que um filme besta com a Meg Rian é a verdadeira tradução do amor romântico e dividir as batatas fritas murchas do mac donald´s representa o símbolo de cumplicidade entre casais. então esquece isso de carta de amor.

ontem fiz uma coisa terrível.

mas não vou dizer o que. todos nós fazemos coisas terríveis todos os dias e não nos damos conta porque achar cinco minutos pra ter peso na consciência pode atrapalhar nossos planos, certo? ir pro trabalho, levar o carro pra lavar, comprar meias novas e avaliar criticamente a própria existência. não, é melhor substituir o último item por “comprar meu iogurte diet”.

ontem vi um cachorro na rua, um vira-lata. era como todos os vira-latas, e isso já bastou pra acabar comigo. o coitado estava imundo e quando me dei conta, estava com tanta pena que queria dizer pra alguém. mas não me animei. queria sentir um entendimento imediato de quem ouvisse minha reclamação, e acho que ninguém por perto conseguiria. enfim, ainda estou mal pelo cachorro. mas que merda.

se você teve o mínimo de curiosidade de pegar um envelope no chão, talvez entenda o lance do cachorro. quem sabe? ando com preguiça das pessoas, acho que é isso. e está frio pra caralho. Quando você vê um filme do woody allen em pleno inverno nova yorkino você acha lindo e compra um belo casaco só pra garantir. mas ninguém te diz como o seu nariz pode ficar dormente e vermelho no inverno brabo dessa cidade. o cinema é bom, mas fode um pouco com a nossa cabeça. A gente começa a esperar um plano seqüência de grandes emoções na sua vida e fica sempre no “e...”? Agora eu sei porque nunca ninguém filmou o Marlon Brando comprando aipo no supermercado.

preciso ir, meus dedos estão ficando rebeldes por causa do frio. olhei minha letra agora e realmente a odiei. odeio o frio.

Mentira.

vou deixar essa carta porque se a levar pra casa corro o risco de me sentir patética demais quando a redescobrir no meio da minha gaveta de entulhos. Todo mundo tem uma gaveta assim, né? que só serve pra amontoar coisas. a gaveta do vamos-tentar-esquecer.

mas também corro o risco de deixar a carta e ninguém ler. aí eu não sei como seria...

...

Fiquei pensando cinco minutos e já sei. em um mês volto e você me responde se leu. é só deixar outra carta no mesmo lugar. não sei se ficou claro, mas a resposta seria escrita também. Se topas, não tente gracinhas. Posso ser perigosa. Onde já se viu escrever carta pra ninguém, né?

Deixa a sua resposta e volte em uma semana pra pegar a minha.

Bom, vamos ver se alguém ainda sabe escrever cartas.

A.

.

N.E:
postagem nova lá pra sexta-feira da semana que vem (isso ainda tem hífen?), ok?
N.E²: Maldito acordo ortográfico.

Terça-feira, 31 de Março de 2009

A Carta - Capítulo 2

Capítulo 02, também enorme. Nesse capítulo, entre uma e outra dose, nosso intrépido herói apresenta Lúcia e promete que o capítulo 03 não será tão longo assim (pelo menos é o que ele espera, afinal ele precisa segurar três leitores interessados até o fim!).

Dois – o Apartamento

As janelas escancaradas, o vento bagunça seus cabelos. Do alto, o sétimo andar.

Pausa.

Meu apartamento é o 703 do edifício Juscelino Kubitschek, logo ali, perto do centro. São exatamente quatro apartamentos por andar, bem dispostos nos doze andares do prédio. Lá embaixo, uma área com uma piscina pra inglês ver, já que nunca vi ninguém nadando ali, se bronzeando ali, sequer passando por ali. Provavelmente só limpam a piscina no natal, quando ainda está frio e a grande maioria dos inquilinos viajando.

O AP é simples. São dois quartos, uma sala conjugada com a cozinha, uma copa, creio que conjugada com a sala, dois banheiros (um dos quartos é suíte) e só. Claro, tem o corredor. Tudo muito velho, do encanamento ao piso, passando pelas infiltrações e os meus móveis. Poucos móveis, aliás. Sempre pensei que quanto mais móveis tivesse, mais trabalho teria pra limpar, então preferi me ater ao básico sofá-mesa-cama-hack-pra-tevê. Nada muito colorido, nada espalhafatoso. Um quadro aqui e ali, algumas fotos. Um dos quartos transformados em escritório; fim. Uma biblioteca modesta. Um bar decente. Whisky, tequila, vodka, vinho e cointreau. O suficiente para suportar essa vida de morador de apartamento.

É fácil identificar um morador de apartamento, é só procurar pelos mais neuróticos. Um sem número de pessoas morando sobre outro sem número de pessoas, compactados, comprimidos, se cruzando diariamente no lobby, no estacionamento e no elevador. Ninguém se conhece, ninguém sabe seu nome. Caso você, ousado, arrisque um bom dia, te olham assustados, como se você (ou eu) fosse um psicopata por, imagina, ter educação. Sempre tive a teoria de que as pessoas que vivem em casas, com direito a quintal, oi-vizinho-como-vai-você, tem muito menos chances de deitar no divã do analista. Não, não faço análise, nem tenho grandes problemas ou algo do tipo, só os mais elementares e naturais, umas inseguranças, coisas assim. Sabe, eu trabalho em casa. É um pouco solitário. Faço traduções de livros para uma editora famosa. Ganho por página. Não que eu receba fortunas, ou não estaria morando aqui, no Kubitschek. Dá pra viver. Dá pra sair de vez em quando, pagar o IPVA do carro, pegar um táxi quando ficar bêbado demais para dirigir, tomar cerveja, comer uma pizza na quarta com alguns ex-colegas de faculdade. A princípio parecia ótimo, mas agora, quase aos trinta, é um tanto deprimente. Da mesma forma é um tanto deprimente, quase aos trinta, aceitar algum convite e sair para dançar porque, aparentemente, as outras pessoas quase aos trinta desapareceram desses lugares. Eu nunca soube dançar também. Não importa. A única razão que me levava a lugares de música alta e pouca luz era beber e, bêbado, tentar convencer alguma mulher a conhecer o meu apartamento. Algumas vezes funcionava.

Conheci Lúcia assim, em uma boate, há uns três anos, quando eu ainda ia a boates. Trocamos beijos e telefones e as coisas foram acontecendo. De repente ela aparecia. Geralmente nos piores momentos. Enquanto eu fechava uma página, enquanto eu estava no banho. Algumas vezes ela aparecia de madrugada, o interfone gritando – era ela, Lúcia. Às vezes vinha, me enchia de beijos, me contava como foi o dia, cozinhava pra mim. Outras vezes chegava calada, pra dormir. E dormia. E só dormia. Esse era o momento em que eu verdadeiramente a adorava. Observava, devoto, os cílios longos, os cabelos curtos, pretíssimos, estilo channel, o batom sempre escuro, as unhas pintadas de preto ou café. Me encostava nela com cuidado, para que não acordasse, e acertava a geometria dos nossos corpos. Minhas mãos iam automaticamente aos seus seios, pequenos. Então eu fechava os olhos e inspirava aquele perfume, aquele cheiro de rua, fumaça e cansaço. Inspirava seus cabelos e dormia feliz.

Antes que percebêssemos ela já morava aqui.

Me acostumei depressa ao seu jeito. Reclamava sempre do meu cheiro de cigarro, das roupas pelo chão. Da minha falta de ambição. Espalhava bilhetes pelo apartamento com ordens: comprar desinfetante, trocar a lâmpada, espanar isso, consertar aquilo. Algumas vezes gritava. À noite, calada, me massageava as costas, me beijava a nuca, trazia chá. Outras vezes me contava de algum livro que andava lendo, falava dos personagens como se fossem seus conhecidos, quase com carinho (ou com ódio) e assim, ying-yang, Lúcia me parecia perfeita.

A falta que Lúcia me fazia era perceptível no lodo acumulado no ralo do banheiro, no pó da estante. As paredes do apartamento iam fechando à minha volta lentamente, me apertando, me sufocando. Repentinamente um cheiro de alecrim dominava o ambiente. Minha mente projetava Lúcia em todos os cantos, me intoxicando aos pouquinhos. A cabeça doía. A cura só era possível depois da quarta dose, quando tudo ficava gelatinoso, como um caramujo passeando na janela.

Em um dia assim, enquanto chovia lá fora, depois da quinta dose de whisky, procurando uma caneta, o tato percebeu o papel e ela apareceu entre os meus dedos, como que por mágica. Já fazia um mês que repousava ali, no fundo da gaveta. Há exatos 31 dias eu chegara do parque, ligara a tevê e me esquecera completamente dela.

Algumas vezes a curiosidade devora mais que a consciência. As palmas das mãos coçavam. Depois da quinta dose, o peito ardia. Dancei os dedos sobre o papel, a tentação era enorme. Foi com uma espécie estranha de prazer e culpa, como se subisse as mãos sobre as coxas de uma adolescente, que devassei o envelope.