quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A paixão segundo R. H.

A continuação do nosso bloguetim fica pra semana que vem, pessoas. Pra quem quiser matar a saudade, tem tudo aqui. Sei lá. Love is in the air, sabe? Não consegui escrever, pois. O Pedro fica pra depois.

Parece paixão nova. Sabe aquela velha história? Você para e olha para o telefone, perguntando se deve discar ou não, aquele frio na barriga? É por aí. Nunca entendi muito essa coisa de paixões extremadas, ai-sem-você-eu-morro-meu-bem. Surtos, gritos, pessoas que enlouquecem ou pulam da ponte por amor. Paixão, pra mim, é complemento, a cobertura do sundae. Talvez dure pra sempre, talvez tenha prazo de validade, talvez não correspondam, provavelmente uma hora ou outra você vai acabar sofrendo porque paixão é feito samba: nem sempre é alegre, pouco importa o compasso. Acho engraçado, mas me pego assoviando e eu, que não sei assoviar, saquei a paixão na hora. Sorrateira, besta, brega. “O meu sangue ferve por você”. E não há motivo aparente, não há explicação, é a mesma pessoa, a mesma intimidade. São os mesmos lábios que você beijava há um ano e meio atrás. O mesmo rosto lindo, o mesmo corpo perfeito, os olhos que brilham, as idéias malucas, os muitos cheiros. É o mesmo riso, o mesmo gozo, de tantas formas diferentes. É a saudade, é o abraço, a língua, os copos de cerveja, o jeito de dormir –o tempo todo, os dramas, os sucessos. Não mais ou menos, mas igualmente linda. O mesmíssimo andar de bailarina. E, ainda assim, a paixão é nova. Talvez a resposta seja o acordar de um torpor, uma revisão de prioridades, um querer ser feliz e sacar que ela está, ou melhor, sempre esteve, nos planos. É estar louco pra ver no que essa vida vai dar.

“Ando
Meio desligado
Eu nem sinto
Meus pés no chão
Olho
E não vejo nada
Eu só penso
Se você me quer
Eu nem vejo a hora
De te dizer
Aquilo tudo
Que eu decorei
E depois do beijo
Que eu já sonhei
Você vai sentir mas
Por favor
Não leve à mal
Eu só quero que você me queira
Não leve à mal”

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A Carta - Capítulo 8

Eu tardo mas não falho!
Conforme prometido há milhares de anos atrás, a continuação da minha, da sua, da nossa epopéia literária!

Agradecemos a preferência;

R.

edit: pra Bia e pra quem mais interessar, os outros capítulos tem acesso fácil. É só clicar no marcador "a carta" ao fim do texto e pimba! Tem-se o bloguetim em mãos.

Capítulo 8 - Gilberto

Gilberto me ligou. Foi em boa hora, até. Há tempos eu não saia de casa para nada que não fosse ir ao mercado, reuniões de trabalho ou deixar cartas no parque. Já passava da hora de sacudir o esqueleto e dar um jeito na vida. Se eu permanecesse em casa por mais tempo em breve mofaria. Minha pele tomada por bolores, fungos diversos. Não, não ia ser nada agradável.

Eu conheci o Gilberto na universidade. Eu cursei letras, ele comunicação. Estudávamos no mesmo campus. Figurinha popular, presidente de diretório acadêmico, atravessador de substâncias ilícitas. Era fácil gostar do cara.

Nossa amizade começou na mesa de sinuca. Naquela época a universidade inteira, alunos, funcionários e boa parte dos professores, freqüentavam os mesmos bares, as mesmas festas. Era interessante e útil, mais fácil de encontrar as menininhas de saias esvoaçantes ou calças justas que desfilavam por aí. Um desses bares –meu franco favorito- era o legítimo inferninho. Mal iluminado, bebida barata, música boa e uma área reservada à jogatina. Mesas de sinuca decoravam o ambiente. Eu bebia com a Margareth no balcão, uma menina bonita com pinta de intelectual, adepta da moda hippie. Me encantava o jeitinho em que ela ajeitava os óculos, em como ela sentava, quase de lado, uma perna sobre a outra, os pés dançando no ar. Eu, hoje, confesso: estava apaixonado.

Ela pedia mais uma cerveja quando aquele sujeito apareceu e perguntou

_Joga sinuca?

Claro que eu jogava. Sinuca, no fundo, é o único esporte em que já me dei bem de verdade e, muito por isso, era meu motivo de orgulho. Virei madrugadas e mais madrugadas colado na mesa e prática, você sabe, leva à perfeição. Olhei para a Margareth. Os olhos bonitos por trás dos óculos, a sobrancelha fina, a boca grande em um sorriso, a blusa de tecido fino sem sutiã. Não, eu não ia sair dali nem a pau.

_Jogo, cara. Mas não tou afim.

Margareth riu. Um olhar sacana. Ela perguntou

_Ta com medo, Pedro?

Orgulho masculino funciona assim: depois de provocado por uma mulher eu iria mijar no pé da cadeira, marcar meu território e só arredar o pé depois de matar o javali e retornar triunfante com comida pra tribo inteira. Estufei o peito, passei o giz no taco, mas não precisei de muito esforço. Eu era bom, muito bom. Gilberto não. Apostamos 10 reais e depois mais dez e depois mais dez. Ganhei as três. Margareth aplaudiu, me senti O cara. Abracei a menina e com meu braço sobre seus ombros voltamos pro balcão: eu, Margareth e o agora já conhecido Gilberto. Na base da filantropia fiz todo o dinheiro da jogatina ser transformado em birita e depois dos trinta reais ainda vieram mais cervejas e mais e mais. Amizade instantânea. E a sorte grande. Na época eu morava em um quarto alugado de um alojamento nas imediações da universidade. Natural de uma cidade menor, vim me desbundar no cotidiano universitário. E, naquela noite, meu quarto recebeu visita. Margareth e seus mamilos rosados, pele branquinha de quem não vê sol e a sua insistência em não tirar os óculos nem mesmo durante o sexo.

Uma noite feliz.

Eu que não tinha amigos de verdade acabei arranjando um que era cheio deles e, pra melhorar, estava de caso com a menina mais gostosa do curso de letras por quem eu já andava apaixonado desde o primeiro semestre.

Sair com o Gilberto era uma confusão. Ele me apresentava inúmeras pessoas de quem eu nunca lembrava o nome e que passaram a me cumprimentar no campus. Fora isso comecei a fumar (do industrializado e do natural), a me interessar por literatura russa, por política, por revoluções. Gilberto me apresentou um novo tipo de mulher. No campus catalogávamos as mulheres por notas de ‘a’ a ‘d’. Utilizávamos de metodologias científicas sofisticadas para alcançarmos o resultado, o rebolado, o jeito de olhar, fora, é claro, peito, bunda e etc. Simples, ‘a’, ‘b’, ‘c’ ou ‘d’. Até que Gilberto inseriu o “eu como”. Isso, aparentemente, enquadrava todas as categorias femininas de ‘a’ a ‘d’, pois ele topava qualquer uma. Alguém falava “hum, nota ‘c’” e ele respondia “eu como”, “nota ‘d’” e ele “eu como”, “nota ‘a’” e ele “eu como demais!”.

Margareth, óbvio, não gostava. Nessa época ela achava toda e qualquer manifestação machista, por mais inofensiva que fosse, uma grande ofensa à classe feminina. Nessa época já estávamos juntos pra valer, só não assumíamos o namoro porque éramos cool demais pra namorar. Estávamos juntos, ponto.

Garanti que não abandonaria a amizade pela mulher, mas foi acontecendo. Por paixão fui me afastando do amigo. Depois de algum tempo só nos cumprimentávamos. Ele me chamava pra sair e eu nunca ia. Por fim perdemos contato.

Então Margareth ficou estranha, começou a me evitar, falava que estava ocupada. Eram provas, eram trabalhos, era o caralho a quatro. Até o dia que veio a explicação. Eu, surpreendentemente, tinha me transformado no maior corno da paróquia. Nenhuma explicação convincente. A culpa não era minha, claro. Segundo ela não era dela também. “Foi acontecendo”. A melhor parte? O outro cara era o meu amigão, Gilberto. O cara. Bonitão, presidente de D.A., traficante, maconheiro filho da puta. Perdi o amigo, perdi a mulher.

Depois de algum tempo de formado ouvi dizer que eles tinham mudado pro interior, moravam em um sítio com cachorro, pato, galinha. Pensei “bem feito”. O cara nunca teria tranqüilidade. Se ela me trocou por ele, poderia muito bem troca-lo por outro. Ele teria que agüentar a própria neurose, ela o ciúme. E que se fodam pra lá.

Encontrei o Gilberto em um bar, pouco depois de conhecer Lúcia. Ele já começava a ficar careca e eu imaginei que fosse castigo divino. Deus era justo, afinal. Conversamos sem rancores. Ao contrário das minhas previsões, ele e Margareth ainda estavam juntos, agora morando na cidade. Ele montou uma agência de publicidade e ia bem, pensava em casamento, em constituir família, virar gente grande. Eu desejei sorte. Voltamos a nos falar, a nos esbarrar em bares. Ele conheceu Lúcia e quando ele e Margareth casaram nós fomos os padrinhos. Ele aturou minha depressão pós separação. Parando pra pensar, um bom amigo. Andava preocupado, eu precisava sair. Agora me telefonava, queria me apresentar alguém. No fundo eu sorri quando ele anunciou o nome

_Ana.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Excuses ²

Povo, tou prestando consultoria pra elaboração do PPA daqui, por isso o atraso. Mas o texto já esta (semi) escrito, então não percam a fé! Assim que eu finalizar essa minha tarefa hercúlea eu publico o dito cujo e pago uma rodada de absinto pra todo mundo.

Trato!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Excuses

“Hum”. Passo o dedo sobre os móveis; poeira. O estado do lugar, há muito abandonado, quase me faz sentir culpado, mas não o suficiente para que estrague o meu dia. Digamos que após o acidente automobilístico eu resolvi dar uma relaxada, ficar mais zen, longe dos bares, das farras, por um tempo, das obrigações que não fossem extremamente necessárias. Larguei os estudos, parei de ficar até mais tarde no trabalho, visitei cachoeiras, me dei ao luxo de comprar um vinho do porto pra brindar com a minha mãe. Tudo tranqüilo. Até julho. Recebi em julho um amigo da Irlanda passando férias. Cachaça, cachaça, cachaça, alguma ressaca. A rotina era dormir tarde e acordar cedo para trabalhar, o celular no ouvido, combinando a noitada que não podia passar em branco, afinal, seriam “só” quatro semanas de estadia em solo brasileiro. De volta ao jardim de infância, seria um bom nome para um documentário que retratasse o mês de julho. A namorada demonstrou, pela primeira vez na vida, algum ciúme, logo ela, a mais linda das mulheres. Se preocupar com o quê? O tempo voa, despacho o moleque de volta pra Irlanda. Retomada a rotina, me vem uma nervosíssima, espumante, intoxicação alimentar. Tudo bem, alguns dias em casa não fazem mal a ninguém. Cai a temperatura, é agosto, meus lábios estão rachados, o céu totalmente nublado, mas não chove. Alguns quilos ainda mais magro, sorrio o dia inteiro, doido pra que as horas passem pra que o expediente acabe, pra voltar pra casa. Há uma semana ganhei uma cachorrinha, uma Golden Retriever de 50 dias, e assumi a paternidade da pequena e as responsabilidades conseqüentes com alegria. Avisei a namorada do encargo via SMS “now you’re the hottest mom ever” e a foto da pequena em anexo. Ela gostou tanto que acho que se algum dia nos separarmos vai ter briga pela custódia. E assim a vida vai indo. Metade da segunda semana de agosto e volto à rotina, aos estudos, ao blog. Espero que vocês ainda topem acompanhar isso daqui porque semana que vem tem capítulo novo da saga semi-abandonada “A Carta”. Palavra de escoteiro.

Beijo do magro!

R.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Voltamos em breve


Pessoal, ando me recuperando do quarto (quarto? Já ando perdendo as contas) acidente automobilístico do ano. Volto assim que a cabeça desinchar e o meu olho direito voltar a enxergar sem o auxílio de colírio a cada 15 minutos.



E um conselho, se for dirigir não beba. Se for pegar carona, pega com quem não bebeu.



Salut!


Yo no me he tomado
Pero me voy a tomar un traguito ahora
Y se que lo que mas espero
Lo mas que se me enamora...

terça-feira, 26 de maio de 2009

A Carta - Capítulo 7

Ok, atraso. Peço desculpas, mas nem cola, eu sei. Atraso toda semana. Pelo menos nessa eu tenho desculpas, um congresso, curso, acidente automobilísitico (o terceiro do ano, me lembrem de nunca mais andar de carona em 2009).
Mas taí, atrasado, escrito às pressas, mas taí! No mesmo bat horário, no mesmo bat canal.

Sete - O dia em que Lúcia me deixou

Ana;

Morremos um pouco todos os dias e, estranhamente, continuamos respirando. Eu poderia supor que morreria um pouquinho hoje mesmo, mas não... Sabe, a minha vida não é a mais empolgante das vidas. Não pulo de asa delta ou defendo réus, nem mesmo salvo vidas em um hospital calmamente branco, não. Traduzo livros. Eu poderia deixar uma cópia do meu último trabalho de presente se o autor não fosse péssimo. O engraçado é que anda vendendo bastante. Talvez até você já tenha lido, quem sabe? Mas não é sempre assim? Sempre os piores autores são os que vendem mais, Dan Brown, Paulo Coelho... E o que importa? Como dizia, o importante é que não morri mais. Desde a sua primeira carta, ando curioso, interessado demais pra morrer, por um simples motivo: não sei nada de você.

Além do nome, do Ana, do anagrama, quem seria você?

Pode ser ousadia, querer te decifrar em duas cartas, mas não acredito que você leia livros ruins, ou ouça música ruim. Imagino seu apartamento organizado, limpo. Te imagino confusa.

Li sua segunda carta me perguntando onde estava a agonia da primeira, onde foram parar os palavrões, o desespero de quem fez algo terrível. Onde andariam os seus pecados?

Ana tão discreta, Ana tão silenciosa, Ana tão misteriosa.

Proponho um jogo, levantaremos o véu. Já confessei um dos meus pecados e ainda não sei nada dos seus. A partir de agora a cada pergunta, a cada segredo revelado você me conta algo seu, só seu, que ninguém mais saiba. Algo que ficará só entre nós dois, Pedro e Ana, ilustres desconhecidos.

Não podemos perder tempo Ana, o tempo corre. Então lanço os dados, aperto start e o jogo começa.

Você se perguntou se eu já morri um pouco. Então eu te conto como foi, o que senti, como foi o dia em que realmente morri. Como foi o dia em que Lúcia me deixou.

O nome apareceu na tela do celular.

_Môr?
_Pê...

Foi assim, por telefone. Três anos de vida comum jogados no lixo, sem grandes explicações, sem nada. “Preciso de um tempo. Não ta dando mais”.

Quando cheguei em casa o armário estava mais vazio, a estante de livros mais vazia, o apartamento mais vazio. Vazio. Talvez seja essa a palavra que melhor resume a sensação de ser abandonado. Aliás, talvez o abandono aconteça em três etapas; antes de a pessoa te deixar, quando ela pode ou não sinalizar que tudo vai mal; o durante, quando ela dá alguma desculpa pra justificar o fato de que você já não tem mais graça, já não faz mais sentido; e o depois, quando você fica pensando em tudo que rolou durante todo o tempo em que vocês estiveram juntos, em tudo que foi bom, em tudo que deu errado, nas coisas que ela te disse e na resposta babaca que você deu. A melhor parte, na maioria das vezes, é a sua resposta babaca. Porque ela tende a ser tão babaca, mas tão babaca, que você fica dias pensando que poderia ter dito algo diferente. Quem sabe se eu tivesse dito um palavrão, se eu fosse menos previsível, se eu tivesse declamado um poema, se eu tivesse chorado, se eu tivesse, se eu tivesse, se eu tivesse... Quem sabe ela ficava? No meu caso eu simplesmente disse

_Ok.

E nunca mais nos falamos.

Impossível alguma palavra ser mais babaca que um “ok”. Ou talvez não. Eu, estúpido, achava que tudo andava bem. Aquele dia ela acordou cedo e me deu um beijo. Eu tinha uma reunião na editora. Discutiríamos agendas, projetos futuros e os malditos prazos. Lúcia sabia e tinha tudo planejado. Eu a imagino cronometrando meu percurso, enquanto eu entrava no elevador ela tirava as malas de cima do armário, enquanto eu ligava o carro ela separava os livros, enquanto eu parava no semáforo ela dobrava as roupas, antes mesmo de eu chegar na sala de reuniões ela já ligava para o táxi e enquanto eu fingia prestar atenção em tudo que diziam, ela já estava a caminho da casa de alguma amiga, dos pais, do amante.

Um amante? Será? Meus amigos, se é que poderiam ser chamados de amigos, me disseram: ela deve ter outro. Quando é assim, elas sempre têm. Tudo bem, pelo menos teria alguma explicação. Me pergunto se ela chorou, se sofreu. Imagino que sim, porque Lúcia é uma romântica. Acho que ela sofreria por reflexo, de tanto assistir comédias românticas. Meg Ryan, McDonald’s. Pois é. De tanto assistir a comédias românticas a pessoa se sente obrigada a sofrer, ao menos um pouquinho. Eu realmente espero que ela tenha sentido dores, convulsões, caído em prantos, tremido, suado, vomitado algumas vezes antes de fazer as malas e me deixar nesse inferno solitário e sem graça chamado “meu apartamento”. “Nosso apartamento” soava tão mais simpático... Se ao menos ela tivesse dado um sinal, alguma coisa, eu teria me preparado, talvez eu a deixasse e não o contrário. Talvez seria Lúcia quem ficaria por horas de pé na varanda, fumando um cigarro atrás do outro, ouvindo Cole Porter, tentando não chorar. Passei a noite inteira ali, devorando meus cigarros, até amanhecer, até o sol subir, até ficar de saco cheio e finalmente ir dormir pra acordar na cama vazia, tão mais... Morto?

O desafio está lançado, Ana.

Aguardo resposta em uma semana.

Beijos;

Pedro.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Carta - Capítulo 6

Intróito: uma confissão do autor
Esse nosso (meu, da Clara e seus) folhetim -bloguetim?- é uma surpresa constante pra todos os envolvidos porque, simplesmente, não existe roteiro. A Clara e eu escrevemos o que queremos sem que o outro seja consultado e é postado dessa forma, in natura. Por isso arregalei os olhos quando li o nome da personagem, "Ana". Eu já tive uma Ana em minha vida que, confesso, "já me fez morrer um pouco". Por isso é um nome que um personagem meu jamais teria. Embora em mim permaneça por ela um carinho grande, eu não quero que ela se leia nos meus escritos. Mas o texto e a personagem são da Clara e, assim, li com olhos novos, sem que Ana, Ana fosse.
E achei lindo.
Fica a certeza, nem todas as mortes são ruins.
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Seis - Ana
Sabe, suas palavras me fizeram morrer um pouco. Mas não se assuste. Nem todas as mortes são ruins.

Já morri algumas vezes pelas mais diversas causas. Talvez só tenha aprendido a viver quem admite uma morte ou outra. Pensei isso agora e me pareceu muito certo. Minhas mortes me fazem pensar, Pedro. E agora penso que gosto do seu nome porque é simples e ao mesmo tempo pesado. Duas sílabas que parecem feitas de chumbo, mas bonitas para se falar.

O meu é Ana. Uma coisa que gosto nele é que de trás pra frente a pronúncia não muda. É um nome que dá voltas nele mesmo, como um gato que brinca com o próprio rabo. É um nome pequeno, mas que não possui um início ou um fim. Ele todo é um círculo.

Mas voltando a você: seus pecados têm sim um tamanho. Não me cabe medi-los, mas posso dizer que apesar de caberem em uma página, eles foram além delas. Penso neles agora, e quando encontrar um cachorro, estranhamente lembrarei de você. E que engraçado! Você poderia estar parado ao meu lado que não poderia te reconhecer enquanto pensasse no seu segredo.

Pedro, as suas palavras me mataram um pouco, mais isso não se trata de mais um pecado seu. Ele é meu, agora. Como um padre que ouve uma confissão e não pode fazer mais nada a não ser compartilhá-lo.

Você disse uma coisa. Disse que na época achava que era feliz. E sabe, Pedro, eu tenho certeza que você era. Porque quando somos felizes, não ligamos muito para a morte. Talvez por isso você não tenha sentido pena. Porque sua felicidade te protegeu da sua consciência.

Às vezes tenho medo das pessoas felizes. Elas podem ser horríveis.

Pois bem, você era feliz, Pedro. Mas agora... agora não sei dizer. Talvez você também tenha morrido um pouco. Como eu, como o cachorro. Sua carta parece confessar isso – além do crime. Estou certa?

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Quando encontrei a tua carta, corri com o envelope nas mãos como quem foge do próprio corpo. Porque senti uma vergonha, mas uma vergonha muito honesta, como se houvesse cometido um crime bem intencionado (tenho certeza que eles existem aos montes). Mas ao mesmo tempo senti medo do que pudesse ler. E de fato, li uma coisa horrível, mas que me traz uma certeza de certa forma, bonita:

Todos nós morremos às vezes, Pedro. Eu, você, o cachorro... Mas ao contrário dele, continuamos estranhamente vivos. E não podemos nos esquecer disso.

Com os cumprimentos de uma pessoa que respira,

Ana