Gilberto me ligou. Foi em boa hora, até. Há tempos eu não saia de casa para nada que não fosse ir ao mercado, reuniões de trabalho ou deixar cartas no parque. Já passava da hora de sacudir o esqueleto e dar um jeito na vida. Se eu permanecesse em casa por mais tempo em breve mofaria. Minha pele tomada por bolores, fungos diversos. Não, não ia ser nada agradável.
Eu conheci o Gilberto na universidade. Eu cursei letras, ele comunicação. Estudávamos no mesmo campus. Figurinha popular, presidente de diretório acadêmico, atravessador de substâncias ilícitas. Era fácil gostar do cara.
Nossa amizade começou na mesa de sinuca. Naquela época a universidade inteira, alunos, funcionários e boa parte dos professores, freqüentavam os mesmos bares, as mesmas festas. Era interessante e útil, mais fácil de encontrar as menininhas de saias esvoaçantes ou calças justas que desfilavam por aí. Um desses bares –meu franco favorito- era o legítimo inferninho. Mal iluminado, bebida barata, música boa e uma área reservada à jogatina. Mesas de sinuca decoravam o ambiente. Eu bebia com a Margareth no balcão, uma menina bonita com pinta de intelectual, adepta da moda hippie. Me encantava o jeitinho em que ela ajeitava os óculos, em como ela sentava, quase de lado, uma perna sobre a outra, os pés dançando no ar. Eu, hoje, confesso: estava apaixonado.
Ela pedia mais uma cerveja quando aquele sujeito apareceu e perguntou
_Joga sinuca?
Claro que eu jogava. Sinuca, no fundo, é o único esporte em que já me dei bem de verdade e, muito por isso, era meu motivo de orgulho. Virei madrugadas e mais madrugadas colado na mesa e prática, você sabe, leva à perfeição. Olhei para a Margareth. Os olhos bonitos por trás dos óculos, a sobrancelha fina, a boca grande em um sorriso, a blusa de tecido fino sem sutiã. Não, eu não ia sair dali nem a pau.
_Jogo, cara. Mas não tou afim.
Margareth riu. Um olhar sacana. Ela perguntou
_Ta com medo, Pedro?
Orgulho masculino funciona assim: depois de provocado por uma mulher eu iria mijar no pé da cadeira, marcar meu território e só arredar o pé depois de matar o javali e retornar triunfante com comida pra tribo inteira. Estufei o peito, passei o giz no taco, mas não precisei de muito esforço. Eu era bom, muito bom. Gilberto não. Apostamos 10 reais e depois mais dez e depois mais dez. Ganhei as três. Margareth aplaudiu, me senti O cara. Abracei a menina e com meu braço sobre seus ombros voltamos pro balcão: eu, Margareth e o agora já conhecido Gilberto. Na base da filantropia fiz todo o dinheiro da jogatina ser transformado em birita e depois dos trinta reais ainda vieram mais cervejas e mais e mais. Amizade instantânea. E a sorte grande. Na época eu morava em um quarto alugado de um alojamento nas imediações da universidade. Natural de uma cidade menor, vim me desbundar no cotidiano universitário. E, naquela noite, meu quarto recebeu visita. Margareth e seus mamilos rosados, pele branquinha de quem não vê sol e a sua insistência em não tirar os óculos nem mesmo durante o sexo.
Uma noite feliz.
Eu que não tinha amigos de verdade acabei arranjando um que era cheio deles e, pra melhorar, estava de caso com a menina mais gostosa do curso de letras por quem eu já andava apaixonado desde o primeiro semestre.
Sair com o Gilberto era uma confusão. Ele me apresentava inúmeras pessoas de quem eu nunca lembrava o nome e que passaram a me cumprimentar no campus. Fora isso comecei a fumar (do industrializado e do natural), a me interessar por literatura russa, por política, por revoluções. Gilberto me apresentou um novo tipo de mulher. No campus catalogávamos as mulheres por notas de ‘a’ a ‘d’. Utilizávamos de metodologias científicas sofisticadas para alcançarmos o resultado, o rebolado, o jeito de olhar, fora, é claro, peito, bunda e etc. Simples, ‘a’, ‘b’, ‘c’ ou ‘d’. Até que Gilberto inseriu o “eu como”. Isso, aparentemente, enquadrava todas as categorias femininas de ‘a’ a ‘d’, pois ele topava qualquer uma. Alguém falava “hum, nota ‘c’” e ele respondia “eu como”, “nota ‘d’” e ele “eu como”, “nota ‘a’” e ele “eu como demais!”.
Margareth, óbvio, não gostava. Nessa época ela achava toda e qualquer manifestação machista, por mais inofensiva que fosse, uma grande ofensa à classe feminina. Nessa época já estávamos juntos pra valer, só não assumíamos o namoro porque éramos cool demais pra namorar. Estávamos juntos, ponto.
Garanti que não abandonaria a amizade pela mulher, mas foi acontecendo. Por paixão fui me afastando do amigo. Depois de algum tempo só nos cumprimentávamos. Ele me chamava pra sair e eu nunca ia. Por fim perdemos contato.
Então Margareth ficou estranha, começou a me evitar, falava que estava ocupada. Eram provas, eram trabalhos, era o caralho a quatro. Até o dia que veio a explicação. Eu, surpreendentemente, tinha me transformado no maior corno da paróquia. Nenhuma explicação convincente. A culpa não era minha, claro. Segundo ela não era dela também. “Foi acontecendo”. A melhor parte? O outro cara era o meu amigão, Gilberto. O cara. Bonitão, presidente de D.A., traficante, maconheiro filho da puta. Perdi o amigo, perdi a mulher.
Depois de algum tempo de formado ouvi dizer que eles tinham mudado pro interior, moravam em um sítio com cachorro, pato, galinha. Pensei “bem feito”. O cara nunca teria tranqüilidade. Se ela me trocou por ele, poderia muito bem troca-lo por outro. Ele teria que agüentar a própria neurose, ela o ciúme. E que se fodam pra lá.
Encontrei o Gilberto em um bar, pouco depois de conhecer Lúcia. Ele já começava a ficar careca e eu imaginei que fosse castigo divino. Deus era justo, afinal. Conversamos sem rancores. Ao contrário das minhas previsões, ele e Margareth ainda estavam juntos, agora morando na cidade. Ele montou uma agência de publicidade e ia bem, pensava em casamento, em constituir família, virar gente grande. Eu desejei sorte. Voltamos a nos falar, a nos esbarrar em bares. Ele conheceu Lúcia e quando ele e Margareth casaram nós fomos os padrinhos. Ele aturou minha depressão pós separação. Parando pra pensar, um bom amigo. Andava preocupado, eu precisava sair. Agora me telefonava, queria me apresentar alguém. No fundo eu sorri quando ele anunciou o nome
_Ana.