Foi a covinha do sorriso, tenho certeza.
Ou aquele jeitinho sempre simpático.
Digo "certeza", mas não, não sei. Não ao certo. Então digamos apenas que sim, que seria. Os irônicos perguntariam "de novo?", os amargos diriam "eu sabia, outra" e alguma romântica, com um sorriso, afirmaria "sim, de novo". Seria? Alguns (ou todos) se esforçam para ver, exatamente, o tal romance, o tão relativizado amor, mas, suspiraria, um ar levemente decepcionado, o amor é (oh!) tão raro! Mesmo quando, no fundo, somos todos uns românticos. A facilidade com que me encanto pelas pessoas é a mesma com que desencanto e, no fim, sempre resta a estrada, vazia. Os filósofos do bar estavam certos. Todo amor é grande quando o coração é pequeno.
Quinta-feira, 17 de Julho de 2008
filobarsando
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Marcadores: a graciosa arte de escrever bêbado, as mulheres hão de acabar comigo, No se puede vivir sin amor, perdidão nas noites sujas, quando some a criatividade falamos da vida
Segunda-feira, 14 de Julho de 2008
Dois ou três almoços, uns silêncios
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: Mas ambos estavam comprometidos.
Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
(CAIO F. - Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)
Leve pensamento diz
Por muito tempo não consigo esperar
Quase sempre ser feliz
É um alento ou uma falta de ar
Capaz de me fazer
Um pouco acreditar
Que o sonho mais perfeito
Pode se realizar
Quando passeio nas nuvens
Tudo parece igual
As sombras são as medidas
De tantas chances perdidas
Sem demora então
É só acreditar
Que o sonho mais perfeito...
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Marcadores: Caio Fernando, na falta de tempo publicamos quem (realmente) sabe escrever
Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
Aquarela
FIT BH
Pintura de aquarela, assim, largada no quadro. Lua grande no ar, noite fria que só. Ou talvez tivesse febre.
O casal sentado no banco do parque, toda uma multidão que passa sem vê-los, pintados em tela. Os outros tantos sorrisos, mais que perdidos entre o cheiro de cigarro, de cerveja, de maconha. Tudo embaralhado no ar do parque municipal.
Ela discursava sobre signos, ele ouvia. Dava sempre uma satisfação estranha, isso de ouvir uma mulher falando de signos, de luas e eteceteras. O pouco que ele aprendeu sobre o assunto foi para poder entender alguém. Agora entendia um pouco todo mundo. Cinco minutos de conversa e sabia: ela é ariana, certeza.
_Áries, né?
_Pergunta por causa da lua?
_Talvez.
Ela sorriu e acendeu um cigarro.
_Acho que tou bêbado.
Persistia uma sensação de ser personagem de livro. De livro escrito por algum autor gaúcho com essas obsessões sobre os relacionamentos humanos e recheados de personagens surreais, esquisitos, que os autores gaúchos insistem em inventar. Talvez o protagonista de um conto curto, quase sem vírgulas, um tanto experimental.
_Ia ser bom.
_O quê?
_Ser personagem de livro.
De manhã ela tinha ido a um enterro. Ele fez compras. Pizza pronta, cerveja, sorvete e coca-cola. O suficiente pra passar da sexta para o sábado. Agora era sábado e eles estavam no parque, bêbados (ele sim, ela quase), discutindo a lua dela em touro. Ele queria saber se ela preferia Dali a Miró. Torcia pra que ela dissesse Miró, mas não quis perguntar pra não estragar o que era, de repente, tão interessante. Ela era independente, abusada, branquela. Vai ver dava jogo.
_Meu número.
Riu por dentro. Era noite de ficar ali, de bobeira. Preso na moldura do quadro.
Se fossem personagens do Galera trepariam no banco do parque e voltariam para casa atropelando cachorros.
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Marcadores: as mulheres hão de acabar comigo, semi-ficção
Quinta-feira, 3 de Julho de 2008
Sexta-feira

A cena é a garota calçando o salto e, de costas, sem olhar, pergunta
_Ficou bom?
Sim, ta ótimo. Toma-se outro gole. Ta linda.
A outra bem disse que era ótima para juntar casais. Não que pra sua panela tenha tampa, ela disse rindo. Mas às vezes ela te dá juízo.
Ri muito, a largo, ao telefone.
Juízo sempre é bom.
I'm a fire and I'll burn burn burn tonight
I'm a fire and I'll burn burn burn tonight
I'm a fire and I'll burn burn burn tonight
I'm a fire and I'll burn burn burn tonight
I'm a fire
I'm a fire and I'll burn burn burn tonight
I'm a fire
I'm a fire and I'll burn burn
I'm a fire and I'll burn burn
I'm a fire and I'll burn burn
I'm a fire and I'll burn burn
I'm a fire and I'll burn burn
I'm a fire and I'll burn burn
I'm a fire
I'm a fire
I'm a fire.
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Marcadores: as mulheres hão de acabar comigo, la dolce vita, quando some a criatividade falamos da vida
Segunda-feira, 23 de Junho de 2008
Com os olhos muito abertos
Não pude fazer com que vivesse isso, escrevo assim mesmo para você que me lê porque é uma maneira de quebrar o cerco, de pedir que você procure em si mesmo se não tem também um desses gatos, desses mortos que amou e que estão nesse aí que já me exaspera mencionar com palavras de papel.
(Julio Cortázar)
Aprofundou os dedos na garganta. Um som seco, mais um engasgo. Nada. Circundava a privada desde as sete da manhã e mais uma vez nada. Mais uma vez aquele mesmo sonho a fazia acordar mais cedo. Antes da primeira luz matutina invadir as frestas da persiana cor de gesso, do sol beijar contente e preguiçoso os olhos fechados. Sentia um frio na barriga. Sabia das probabilidades, se conhecia, sabia da sua sensibilidade. Sabia dos riscos de um deja vu. Calçou as meias delicadas, afastou o edredom e respirou fundo. O cabelo preso atrás da nuca, o rosto lavado pela água fria. Já era a quinta hora. Já era a nona vez. Os joelhos tocaram os azulejos azulados, mais uma vez. Aprofundou os dedos na garganta. Finalmente, vomitava borboletas.
A você que me lê, não lhe terá acontecido aquilo que começa num sonho e volta em muitos sonhos mas não é isso, não é somente um sonho? Alguma coisa que está aí, mas onde, como; alguma coisa que acontece sonhando, é claro, simples sonho mas depois também aí, de outra maneira porque mole e cheio de buracos mas aí enquanto você escova os dentes, no fundo da pia você continua a vê-lo enquanto cospe a pasta de dentes ou enfia a cara na água fria, e já enfraquecendo mas preso ainda ao pijama, à raiz da língua enquanto esquenta o café, aí, mas onde, como, grudado à manhã, com seu silêncio em que já entram os ruídos do dia, o noticiário do rádio que ligamos porque estamos acordados e levantados e o mundo continua andando.
(Julio Cortázar)
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14:33
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Marcadores: No se puede vivir sin amor
Domingo, 15 de Junho de 2008
El Desdichado
Ev'ry day i lean on a lamp post,
I'm wasting my time.
Ev'ry night i lay on a pillow,
I'm resting my mind.
Ev'ry morning brings a new day
And ev'ry night that day is throu-ough.
But tonight i just wanna stay in
And be with you,
And be with you.
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Marcadores: brainstorm, comédias da vida privada, la dolce vita, só pra tirar o último post do alcance dos meus olhos
Sábado, 14 de Junho de 2008
Valentines whattafuck?
Qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro meus braços pra você
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02:59
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Marcadores: a graciosa arte de escrever bêbado, brainstorm, comédias da vida privada, I'm a mental case you know?, perdidão nas noites sujas

