Capítulo 02, também enorme. Nesse capítulo, entre uma e outra dose, nosso intrépido herói apresenta Lúcia e promete que o capítulo 03 não será tão longo assim (pelo menos é o que ele espera, afinal ele precisa segurar três leitores interessados até o fim!).
Dois – o Apartamento
As janelas escancaradas, o vento bagunça seus cabelos. Do alto, o sétimo andar.
Pausa.
Meu apartamento é o 703 do edifício Juscelino Kubitschek, logo ali, perto do centro. São exatamente quatro apartamentos por andar, bem dispostos nos doze andares do prédio. Lá embaixo, uma área com uma piscina pra inglês ver, já que nunca vi ninguém nadando ali, se bronzeando ali, sequer passando por ali. Provavelmente só limpam a piscina no natal, quando ainda está frio e a grande maioria dos inquilinos viajando.
O AP é simples. São dois quartos, uma sala conjugada com a cozinha, uma copa, creio que conjugada com a sala, dois banheiros (um dos quartos é suíte) e só. Claro, tem o corredor. Tudo muito velho, do encanamento ao piso, passando pelas infiltrações e os meus móveis. Poucos móveis, aliás. Sempre pensei que quanto mais móveis tivesse, mais trabalho teria pra limpar, então preferi me ater ao básico sofá-mesa-cama-hack-pra-tevê. Nada muito colorido, nada espalhafatoso. Um quadro aqui e ali, algumas fotos. Um dos quartos transformados em escritório; fim. Uma biblioteca modesta. Um bar decente. Whisky, tequila, vodka, vinho e cointreau. O suficiente para suportar essa vida de morador de apartamento.
É fácil identificar um morador de apartamento, é só procurar pelos mais neuróticos. Um sem número de pessoas morando sobre outro sem número de pessoas, compactados, comprimidos, se cruzando diariamente no lobby, no estacionamento e no elevador. Ninguém se conhece, ninguém sabe seu nome. Caso você, ousado, arrisque um bom dia, te olham assustados, como se você (ou eu) fosse um psicopata por, imagina, ter educação. Sempre tive a teoria de que as pessoas que vivem em casas, com direito a quintal, oi-vizinho-como-vai-você, tem muito menos chances de deitar no divã do analista. Não, não faço análise, nem tenho grandes problemas ou algo do tipo, só os mais elementares e naturais, umas inseguranças, coisas assim. Sabe, eu trabalho em casa. É um pouco solitário. Faço traduções de livros para uma editora famosa. Ganho por página. Não que eu receba fortunas, ou não estaria morando aqui, no Kubitschek. Dá pra viver. Dá pra sair de vez em quando, pagar o IPVA do carro, pegar um táxi quando ficar bêbado demais para dirigir, tomar cerveja, comer uma pizza na quarta com alguns ex-colegas de faculdade. A princípio parecia ótimo, mas agora, quase aos trinta, é um tanto deprimente. Da mesma forma é um tanto deprimente, quase aos trinta, aceitar algum convite e sair para dançar porque, aparentemente, as outras pessoas quase aos trinta desapareceram desses lugares. Eu nunca soube dançar também. Não importa. A única razão que me levava a lugares de música alta e pouca luz era beber e, bêbado, tentar convencer alguma mulher a conhecer o meu apartamento. Algumas vezes funcionava.
Conheci Lúcia assim, em uma boate, há uns três anos, quando eu ainda ia a boates. Trocamos beijos e telefones e as coisas foram acontecendo. De repente ela aparecia. Geralmente nos piores momentos. Enquanto eu fechava uma página, enquanto eu estava no banho. Algumas vezes ela aparecia de madrugada, o interfone gritando – era ela, Lúcia. Às vezes vinha, me enchia de beijos, me contava como foi o dia, cozinhava pra mim. Outras vezes chegava calada, pra dormir. E dormia. E só dormia. Esse era o momento em que eu verdadeiramente a adorava. Observava, devoto, os cílios longos, os cabelos curtos, pretíssimos, estilo channel, o batom sempre escuro, as unhas pintadas de preto ou café. Me encostava nela com cuidado, para que não acordasse, e acertava a geometria dos nossos corpos. Minhas mãos iam automaticamente aos seus seios, pequenos. Então eu fechava os olhos e inspirava aquele perfume, aquele cheiro de rua, fumaça e cansaço. Inspirava seus cabelos e dormia feliz.
Antes que percebêssemos ela já morava aqui.
Me acostumei depressa ao seu jeito. Reclamava sempre do meu cheiro de cigarro, das roupas pelo chão. Da minha falta de ambição. Espalhava bilhetes pelo apartamento com ordens: comprar desinfetante, trocar a lâmpada, espanar isso, consertar aquilo. Algumas vezes gritava. À noite, calada, me massageava as costas, me beijava a nuca, trazia chá. Outras vezes me contava de algum livro que andava lendo, falava dos personagens como se fossem seus conhecidos, quase com carinho (ou com ódio) e assim, ying-yang, Lúcia me parecia perfeita.
A falta que Lúcia me fazia era perceptível no lodo acumulado no ralo do banheiro, no pó da estante. As paredes do apartamento iam fechando à minha volta lentamente, me apertando, me sufocando. Repentinamente um cheiro de alecrim dominava o ambiente. Minha mente projetava Lúcia em todos os cantos, me intoxicando aos pouquinhos. A cabeça doía. A cura só era possível depois da quarta dose, quando tudo ficava gelatinoso, como um caramujo passeando na janela.
Em um dia assim, enquanto chovia lá fora, depois da quinta dose de whisky, procurando uma caneta, o tato percebeu o papel e ela apareceu entre os meus dedos, como que por mágica. Já fazia um mês que repousava ali, no fundo da gaveta. Há exatos 31 dias eu chegara do parque, ligara a tevê e me esquecera completamente dela.
Algumas vezes a curiosidade devora mais que a consciência. As palmas das mãos coçavam. Depois da quinta dose, o peito ardia. Dancei os dedos sobre o papel, a tentação era enorme. Foi com uma espécie estranha de prazer e culpa, como se subisse as mãos sobre as coxas de uma adolescente, que devassei o envelope.