segunda-feira, 7 de julho de 2008

Aquarela

FIT BH


Pintura de aquarela, assim, largada no quadro. Lua grande no ar, noite fria que só. Ou talvez tivesse febre.
O casal sentado no banco do parque, toda uma multidão que passa sem vê-los, pintados em tela. Os outros tantos sorrisos, mais que perdidos entre o cheiro de cigarro, de cerveja, de maconha. Tudo embaralhado no ar do parque municipal.
Ela discursava sobre signos, ele ouvia. Dava sempre uma satisfação estranha, isso de ouvir uma mulher falando de signos, de luas e eteceteras. O pouco que ele aprendeu sobre o assunto foi para poder entender alguém. Agora entendia um pouco todo mundo. Cinco minutos de conversa e sabia: ela é ariana, certeza.
_Áries, né?
_Pergunta por causa da lua?
_Talvez.
Ela sorriu e acendeu um cigarro.
_Acho que tou bêbado.
Persistia uma sensação de ser personagem de livro. De livro escrito por algum autor gaúcho com essas obsessões sobre os relacionamentos humanos e recheados de personagens surreais, esquisitos, que os autores gaúchos insistem em inventar. Talvez o protagonista de um conto curto, quase sem vírgulas, um tanto experimental.
_Ia ser bom.
_O quê?
_Ser personagem de livro.
De manhã ela tinha ido a um enterro. Ele fez compras. Pizza pronta, cerveja, sorvete e coca-cola. O suficiente pra passar da sexta para o sábado. Agora era sábado e eles estavam no parque, bêbados (ele sim, ela quase), discutindo a lua dela em touro. Ele queria saber se ela preferia Dali a Miró. Torcia pra que ela dissesse Miró, mas não quis perguntar pra não estragar o que era, de repente, tão interessante. Ela era independente, abusada, branquela. Vai ver dava jogo.
_Meu número.
Riu por dentro. Era noite de ficar ali, de bobeira. Preso na moldura do quadro.

Se fossem personagens do Galera trepariam no banco do parque e voltariam para casa atropelando cachorros.