quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Eu sei o que fiz em um verão passado

Um causo verídico de uma infância maluca. Me garantiu pesadelos por muito tempo.


A Avenida Bragança é entrecortada em seu meio por outra avenida, um trecho de menor movimento, ou assim era naquela época. Uma perfeita encruzilhada. Quando moleques passávamos por ali com certa freqüência pra catar mamonas em um lote vago de mato altíssimo coroado com um muro baixo, perfeito pra uma criança pular. Mamona era uma munição terrível para as armas feitas com balão e um tubo de PVC; além de doer pra burro manchava a roupa. Se a vítima sufocasse o grito de dor a mancha denunciava: foi pego, ladrão! Ta fora da brincadeira.
Durante as excursões sazonais às mamoeiras, atravessávamos com um arrepio a encruzilhada da Bragança. Por ali figuravam, tipicamente, o prato decorado com farofa, velas, a garrafa de cachaça. Vez ou outra um sapo com a boca costurada ou uma galinha preta. Se aparecesse sapo ou galinha, Leo, o mais velho, avisava, era magia negra, macumba pra prejudicar os desafetos. A meninada ria e demonstrava coragem, mas por dentro estremecia, medo da macumba ser contagiosa.
Sexta-feira era dia certo da macumbada, era só correr sábado cedinho lá pra conferir o cardápio: sapo costurado. Esse povo devia fazer criação, afinal sapo não brota do chão.
A imaginação voava, mas pra ter certeza só ao vivo e ao vivo dava medo. Em um desses dias em que a curiosidade supera o juízo e a vergonha de passar por covarde vira coragem, topamos. Dormiríamos na casa do Leo, de lá escapuliríamos, passaríamos a noite em vigília, contemplaríamos a macumba.
A fuga ocorreu sem grandes problemas, a mãe do Leo, Dona Conceição, tinha sono pesado, nós tínhamos pés leves. Sem medo de assalto ou seqüestro, mas cagando de medo das macumbeiras, tocamos prum ponto estratégico e igualmente temido: a casa da Sapatão. Ela era boa gente, mas era sapata, isso, para nós, era terrível. A imaginávamos uma depravada sexual, que comeria criancinhas no lanche, o Leo sempre avisava
_Se ela te pegar vai enfiar o dedo no seu cu.
Bom, o Leo tinha quase 13 anos. Devia saber das coisas. Pra ajudar a fama da pobre, de quando em quando rumores surgiam de algum vizinho que supostamente havia sido dedado. Tremíamos!
A casa da Sapatão era a única casa que tinha grade e não muro alto por ali. Por trás de um muro não veríamos, já a grade era camarote. A tropa era bem instruída, os soldados valorosos. Não sem um arrepio, invadimos a casa da Sapata. Agora era esperar.
E demorou.
Criança é um bicho difícil de permanecer acordado quando precisa, então quase dormíamos quando alguém avisou: Ela ta chegando.
Era uma única macumbeira, solitária. Parou, preparou os produtos, acendeu vela, rezou, cantou sozinha. No peito o coração retumbava.
O silêncio. Os corações batiam compassados. Audíveis.
Um ato convulsivo, a mulher tremeu. Movimentos estranhos, arranques, rebolados, ela tava ali, incorporada, fora de um centro de umbanda: Maria Padilha em carne, osso e espírito.
A Padilha é um Exu feminino, a chamada Pomba Gira. Não, não: Exu não é exatamente um diabo, portanto a Padilha também não é uma diaba. Mas pode ser. Ou quase. Exu, como o Hermes dos gregos ou o Mercúrio dos romanos, na verdade é um go-between, um leva-e-traz, aquele que estabelece o contato entre o humano e o divino. Sem ele, portanto, nada feito. Adora beber, fumar,- e pensa em sexo sem parar.
Um voltar de pescoço. Os olhos dela pairaram em nossa direção. Fomos vistos! Abortar missão! Olhávamos desesperados uns para os outros, isso não estava nos planos, ser vistos não estava nos planos! Foi quando ela riu. Uma risada desarmônica, de outro mundo. Gritaria. Uma porta se abriu, falha dupla: além de avistados pelo Exu, fomos pegos pela Sapatão. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ou mete o dedo. Foi uma evasão em massa, uma correria, ouvíamos palavrões gritados sabe-se lá por qual das duas.
Vivos, mas cautelosos, por uma semana a Avenida Bragança ficou vazia. No sábado a conferência. Tava lá.
Sapo costurado.

Peguei a descrição da Padilha de um e-mail que recebi, desconheço a autora. Lendo lembrei da aventura e resolvi postar aqui. Muito cuidado na hora de dobrar a esquina, minha gente