quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Coração alheio, letra diferente

*A autora é uma grande amiga e é dela o conto. Conto tristíssimo, escrito com uma suavidade e profundidade que não tenho. Às vezes acho meus textos ríspidos demais.
Juju, querida, espero que não se ofenda com a publicação desavisada.
Beijos e alfazema.
R.

Um mini, micro, mas conto


Descobri que sou uma menina órfã. De repente, comecei a sentir falta de um chinelão de couro esparramado no tapete, um copo de uísque na ponta do braço do sofá, um jornal estendido em cima de um homem um pouco barrigudo, barba por fazer, seus cinqüenta e poucos anos. Ele me olhava dizendo, acordou cedo, filha. É, perdi o sono, pai. Aquela ternura me embriagava de uma coisa que só pai tem. Me sentia amada como jamais pudesse ser.
Por um instante desejei que minha vida fosse assim. Na verdade, aquilo era o que eu sempre quis pra mim, nos domingos de sol a mãe preparando o almoço, o cheiro de carne assada perfumando a casa, a mesa do café posta me esperando. Mas não, nunca tive e receava que fosse isso o que buscava para a minha vida, na extensão da minha própria família. As coisas não podem acontecer assim. Cada qual no seu tempo, sem pressa. Mesmo que isso ardesse os meus dias e fosse me buscar escondida, fazendo com que eu percebesse a minha verdadeira infelicidade.

Juliana Alexandrino
17/10/2008

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Excuses

Andei profundamente envolvido com as eleições municipais, por isso o sumiço. E, olha só, fiz dois candidatos. Sempre tive gosto pra política, sempre estive envolvido, mas nunca tanto. Agora é correr atrás dos projetos e cobrar o trabalho. E voltar ao blog com um post apressado.

 
O gole de vinho

Para C. e suas cortinas queimadas.

Trabalha-se muito para atingir a perfeição e, olha só querida, a perfeição tem seu preço. Os ombros cansados, as olheiras profundas, o peso do mundo. Não foi tão por querer que caí de amores. Ou foi? Dizem por aí que há sempre um momento. Que há escolha. Sempre há opção entre o "fico ou eu vou?" Debruçada ante o parapeito, a eterna pergunta, a eterna busca. Talvez não houvesse escolha. Me apaixonei, simplesmente. Me perdi. Meus olhos, seus olhos. Nossos cabelos longos, nossas peles morenas, nossos corpos, nossas curvas, cintura, seios e bundas. Amigas, sim. Éramos amigas. Você nunca entendeu, eu sempre quis mais. Saímos para um chope, tirei fotografias. Nós duas juntas, você, você, você, você. Linda, perfeita, sorrindo. Sua festa de aniversário, uma aventura no seu apartamento, todas as pessoas na sala comemorando, me esgueirei cuidadosamente ao seu quarto, abri a terceira gaveta do armário embutido, escolhi a calcinha mais safada, nunca imaginei que você fosse desse estilo sex-shop -adorei, e coloquei no bolso. Voltei feliz para sala. Na última quarta-feira te chamei para conversar. Fingi sede, subi ao seu apartamento para um copo d'água. Peguei suas havaianas emprestadas, jamais devolveria. Eu estava realmente excitada. Havia preparado a grande noite. Velas, vinho. Meu perfume Dior. Você entrou assustada, perguntou o que era aquilo tudo. Estava linda, a roupa branca, o colar prateado pendendo no pescoço. Perdi as palavras, perdi a voz por alguns segundos. Então me declarei te amo, te amo, te amo. E você riu. Riu. Você riu. Me pediu calma, sentaríamos para conversar. Mas não houve conversa, houve? Seus olhos não pareciam assim tão brilhantes enquanto minhas mãos envolviam seu pescoço. Seu sorriso não parece mais tão belo agora, você estática, gelada, caída ao chão.