Eu comia Marcela todas quarta-feiras. Ou, acho mais certo dizer, Marcela me comia todas as quartas. Não existe expressão melhor para descrever a minha relação com Marcela: nos comíamos. Conheci Marcela em uma calourada da faculdade, eu no último semestre, ela no primeiro. Uma quase menina nos seus dezoito anos, a pele branquinha, os olhos alegres e azuis. Ela entrando em um mundo novo, eu espremendo a última gota de limão daquele mundo que já ia ficando velho. Conversamos um pouco, bebemos muito, “Vamos dançar?” “Não, eu não sei dançar, mexo os ombros e é isso aí.” “Deixa de ser besta e vem comigo.” Dançamos. Ou, mais uma correção, ela dançou. Em algum momento fui ao banheiro e ela foi atrás, a primeira (e histórica) vez que eu e Marcela nos comemos, em pé em um banheiro de boate, uma fila enorme espancando uma porta trancada, xingando e querendo entrar.
Continuei comendo Marcela durante aquele semestre. Continuei a comer Marcela depois de formado. Religiosamente, toda quarta-feira. Era o único dia em que ela não voltava para casa, em uma cidadezinha do interior. Ela me esperava em um bar, sempre o mesmo bar, barzinho da faculdade, onde o pessoal se reúne, de onde muita gente não sai para assistir as aulas. Eu parava o carro, ela despedia das amigas sorrindo, entrava, o mesmo sorriso, como quem ia levar o cachorro para passear, e nos comíamos. Ou, como disse, Marcela me comia, o sexo furioso. Muitas vezes não chegávamos no motel. Marcela não deixava, abria o zíper, gulosa, caia matando. Algumas vezes me atacava, o carro em movimento. Parávamos no acostamento e nos comíamos, eu e Marcela. Não fazíamos mais nada além disso, nos comer. Na faculdade nos cumprimentávamos, corteses. Nada de papinhos, nada de perguntar de provas “e aí o que você ta achando?”, nada de convidar para festas, nada. Na volta das trepadas ouvíamos música, falávamos besteira, nada profundo, apenas o essencial para não deixar o retorno desconfortável. Certas vezes Marcela me atacava também na volta e o carro mais uma vez parado no acostamento.
Comi Marcela enquanto saia com a Verinha, comi Marcela enquanto comia Bárbara, Lu, Mariana, Ana e Patrícia. Marcela sabia, não ligava. Ela até arranjava uns namoradinhos de vez em quando, affairs passageiros, sem substância, e às quartas continuava sendo a minha Marcela, de olhos azuis, cabelos pretinhos e garganta profunda. Só paramos de nos ver quando me apaixonei, perdidamente, por Lívia, e não queria mais ninguém, nem Marcela. Oito longos meses, Marcela não reclamou, não ligou, nunca mais apareceu. Depois de tudo terminado telefonei, ela atendeu, nos vimos em uma quarta feira. Os mesmos olhos, o mesmo sorriso de quem iria levar o cachorro para passear, a mesma fúria de quem não agüenta esperar chegar no motel. Foi mais de um ano, comi loiras e morenas, uma ou outra ruiva, aquela chinesinha e Marcela, sempre Marcela, às quarta-feiras. Meu programa favorito. Melhor que o pôquer às quintas, eu tinha Marcela às quartas. Então surgiu Lígia, minha segunda paixão, mulher arrebatadora. Lígia e os seus vinte aninhos, Lígia e sua pele de leite, Lígia e seus rompantes, Lígia meu oásis, meu medo, meu desejo. Lígia meu tormento, Lígia meu desespero, Lígia meu maior abandono. Abandonado e desesperado, sem chão, sem carinho, sem cuidado, telefonei. Seis meses depois. Marcela. Meu anjo, meu tesão, Marcela minha salvação. Me esperando em um barzinho em plena quarta-feira.
Continuei comendo Marcela durante aquele semestre. Continuei a comer Marcela depois de formado. Religiosamente, toda quarta-feira. Era o único dia em que ela não voltava para casa, em uma cidadezinha do interior. Ela me esperava em um bar, sempre o mesmo bar, barzinho da faculdade, onde o pessoal se reúne, de onde muita gente não sai para assistir as aulas. Eu parava o carro, ela despedia das amigas sorrindo, entrava, o mesmo sorriso, como quem ia levar o cachorro para passear, e nos comíamos. Ou, como disse, Marcela me comia, o sexo furioso. Muitas vezes não chegávamos no motel. Marcela não deixava, abria o zíper, gulosa, caia matando. Algumas vezes me atacava, o carro em movimento. Parávamos no acostamento e nos comíamos, eu e Marcela. Não fazíamos mais nada além disso, nos comer. Na faculdade nos cumprimentávamos, corteses. Nada de papinhos, nada de perguntar de provas “e aí o que você ta achando?”, nada de convidar para festas, nada. Na volta das trepadas ouvíamos música, falávamos besteira, nada profundo, apenas o essencial para não deixar o retorno desconfortável. Certas vezes Marcela me atacava também na volta e o carro mais uma vez parado no acostamento.
Comi Marcela enquanto saia com a Verinha, comi Marcela enquanto comia Bárbara, Lu, Mariana, Ana e Patrícia. Marcela sabia, não ligava. Ela até arranjava uns namoradinhos de vez em quando, affairs passageiros, sem substância, e às quartas continuava sendo a minha Marcela, de olhos azuis, cabelos pretinhos e garganta profunda. Só paramos de nos ver quando me apaixonei, perdidamente, por Lívia, e não queria mais ninguém, nem Marcela. Oito longos meses, Marcela não reclamou, não ligou, nunca mais apareceu. Depois de tudo terminado telefonei, ela atendeu, nos vimos em uma quarta feira. Os mesmos olhos, o mesmo sorriso de quem iria levar o cachorro para passear, a mesma fúria de quem não agüenta esperar chegar no motel. Foi mais de um ano, comi loiras e morenas, uma ou outra ruiva, aquela chinesinha e Marcela, sempre Marcela, às quarta-feiras. Meu programa favorito. Melhor que o pôquer às quintas, eu tinha Marcela às quartas. Então surgiu Lígia, minha segunda paixão, mulher arrebatadora. Lígia e os seus vinte aninhos, Lígia e sua pele de leite, Lígia e seus rompantes, Lígia meu oásis, meu medo, meu desejo. Lígia meu tormento, Lígia meu desespero, Lígia meu maior abandono. Abandonado e desesperado, sem chão, sem carinho, sem cuidado, telefonei. Seis meses depois. Marcela. Meu anjo, meu tesão, Marcela minha salvação. Me esperando em um barzinho em plena quarta-feira.

