segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Meu amor, meu bem, me ame

Para R. R.

Precisava de carinho, sei lá. Alguma coisa. Algum motivo pra sair de casa além dos copos cheios e das risadas certas. Precisava de alguém. Então decidiu, ia arranjar um namorado. Não deveria ser difícil. Já dispensou tantos caras que babavam por ela, trazer mais um babando seria moleza.
Ligou pras amigas e avisou da resolução:
_A partir de hoje só salto alto, vou arranjar um namorado!
Algumas apoiaram, outras indignaram-se. Mais da metade falou mal pelas costas, devia estar desesperada, coitada. Ela sabia, não ligou. Foi ao salão, cuidou dos cabelos, fez depilação, as unhas. Experimentou técnicas alternativas de embelezamento, apelou pro chá verde. Leu sobre tantra e folheou o kama sutra. Foi pra guerra.
Primeiro freqüentou boates, encontrou rapazes bonitinhos e engraçadinhos, até. Mas ninguém vai a boate pra descolar namorada, ela já desconfiava e confirmou. Tentou mudar de ambiente, barzinhos, bibliotecas, shows, lan houses. Apelou para amigos de amigas, mas nada. Impressionantemente ninguém tinha o currículo básico, imagine-se o avançado, pra se candidatar ao posto de namorado de alguém tão espetacular como, bem, ela.
_Definitivamente.
O conheceu no corredor do supermercado, no dia em que iria anunciar a retirada das tropas e deixar pra lá esse papo de namorado, logo ela, uma mulher tão linda, livre, independente? Enquanto escolhia cebolas, ele media um pimentão verde com os olhos, o pesava com as mãos, sentia a textura da casca. Ela achou engraçada a seriedade do sujeito com o pimentão, ele percebeu, fez uma piada, puxou assunto, falou de temperos, de comida italiana, indiana, mineira, árabe, falou das maravilhas do manjericão, de como homem que sabe cozinhar tende a ser bom de cama. Ela riu, ele riu, pediu desculpas. Ela o acompanhou pela sessão de vinhos, enquanto ele escolhia um bom chileno, explicou os paladares, da preferência pela cabernet sauvignon. No caminho do caixa discutiram cinema, bossa nova, new jazz, chá verde e kama sutra. Na despedida ele avisou “meu nome é Mário”, anotou o telefone atrás do recibo das compras, entrou um Ford cinza, sorriu e desapareceu.
Ela ficou na dúvida por alguns segundos. Nunca ouviu falar de algum príncipe encantado que escolhesse pimentão. Acabou ligando, afinal ela era linda e independente. Ele atendeu, marcaram um cinema, dividiram uma pipoca gigante, uma coca zero king size, motel com hidro-cama-redonda-cadeira-erótica, curso de fotografia, natação, milk shakes, apartamento, conta de TV a cabo e acabaram casando em setembro do ano passado em uma cerimônia íntima, pra poucas pessoas. Era tudo perfeito, Mário era mais do que ela podia imaginar, um cara inteligente, educado, bem humorado, safado na dose certa, trazia presentes, perfumes, sapatos, lia muito, sempre tinha assunto, piada, considerações, ganhava bem, cuidava do corpo, da saúde, gostava de viajar, era bom de cama e cozinhava divinamente bem. “Partidão”, confirmou a mãe. Bem, a mãe dela nunca gostou de nenhum namorado antes, sentia-se aliviada com o fato de ela aprovar o marido.
Mas alguma coisa aconteceu. Precisava de aventura, sei lá. Alguma coisa. Algum motivo pra sair de casa além da pizza com o Marido, do chope com as amigas. Precisava de aventura, viver alguma coisa mais parecida com o cinema, com as novelas. Então decidiu, ligou pras amigas, avisando da resolução:
_A partir de hoje só salto alto. Vou arranjar um amante!


Aquele papinho:
Minha gente, desculpem a ausência (mais de um mês sem passar por aqui), desculpem o texto insosso, apressado. Veio natal, veio ano novo, vieram viagens, veio abertura de ano aqui no trabalho que é O sufoco, veio o retorno do namoro, veio TANTA coisa, só o blog não veio e foi ficando, ficando... E era preciso tirar as traças do blog, ver os comentários, dar sinal de vida, enfim, e com a correria que a vida anda foi necessário escrever qualquer coisa assim, em quinze minutos. Mas, no fim, foi bom, a “Marcela” do post passado rendeu um feedback nunca antes visto na história desse blog! Obrigado pelos comentários e pelos tantos e-mails (geralmente tão raros!), é bem bacana isso de ter um retorno de pessoas de dentro e de fora desse mundo blogueiro. Gracias e vamos ver se dá pra retomar um certo patamar de qualidade dos textos a partir da próxima postagem.

R.