Inicio aqui e agora a maior, mais ambiciosa e provavelmente mais mal sucedida série desse blog, meu primeiro longa metragem que, como vocês podem ver, será desenvolvida em capítulos (espero eu de no máximo 10), queria eu um por semana, e não necessariamente em sequência, podendo ser interrompida por textos esparsos. Espero que ao menos três pessoas tenham saco o suficiente para ler até o final e sobrevivam ao primeiro capítulo que, por ser o primeiro, acabou ficando grande pra xuxu.
Me desejem sorte.
dedicado ao verme que primeiro roeu as frias carnes do cadáver de Brás Cubas.
dedicado, especialmente, à tchurma do Tripé.
Um – O parque
Era uma tarde, talvez. Talvez fosse manhãzinha.
Lembro do verde do parque, do amarelo dos táxis, o contraste com o cinza dos prédios e o céu semi-cinza de julho. Com o passar do tempo os pequenos detalhes se embaralham e fica tudo um tanto nublado.
Há alguns dias, a garota do tempo, exibindo seu tailleur bem cortado, essas coisas de jornal televisivo pra depois da novela das seis, que você é obrigado a assistir porque não tem mais nada passando na TV (talvez seja hora de assinar TV a cabo, ou, quem sabe, a satélite –qualidade digital e mais de trezentos canais), avisava que faria um frio terrível, cínico, desses frios de julho como só quem mora por aqui deve conhecer. As pontas dos dedos ficam arroxeadas, o vento corta a pele, a geada deixa uma camada fina de gelo sobre as folhas das árvores, fica tudo meio melancólico, te convidando para um conhaque, uma lareira. Claro que me falta a lareira, só me sobra o conhaque, mas deu pra você entender.
O frio tem o curioso poder de espantar as pessoas das ruas. Fica tudo vazio, quase sem gente, os mendigos embrulhados em seus cobertores e jornais e só. Toda uma multidão entra em um estado de hibernação imperturbável, quase sagrado.
Foi por isso, por essa plenitude, pela oportunidade de ter a cidade só pra mim, que resolvi abandonar os edredons, calçar minhas luvas e dar uma volta por aí.
Aquele dia, disso eu tenho certeza, era um domingo. Nove de julho. Fazia exatamente uma semana que não falava com Lúcia. Eu andava naquela fase patético-contemplativa de quem acaba de levar um pé na bunda e não sabe se bebe, se ri ou se chora. Na dúvida, um longo suspiro; fui ao parque.
O parque, bem, era nosso lugar preferido. Dava aquela sensação cinematográfica de romance, como os romances deveriam ser: beijos, balões cor de rosa e céu azul.
Naquele domingo em especial não havia cores, só um tom sépia por toda parte. Andando devagarzinho, de forma o frio machucar menos, assistindo minha respiração subir em forma de vapor, os fones de ouvido a postos, cruzei o portão de grades escuras, sozinho. Andei, andei e andei, vi o lago sem os marrecos, fumei uns quatro cigarros, me perguntei o que Lúcia andaria fazendo em um domingo tão gelado. Provavelmente dando pra alguém.
Piranha.
Chutei pedrinhas.
O céu mezzo azul, mezzo cinza, sem sol e sem nuvens. Julho sempre é um tanto caótico por aqui, nesse pedaço do mapa. Por aqui um parque vazio em mês de julho é o mais legítimo incentivo ao suicídio. A solidão representada, caracterizada e satirizada em uma única tarde. Ou seria manhã? Um grande convite, os pulsos cortados e o corpo pra lá de gelado encontrado pelo guarda noturno, sentado em um banco de frente pro lago de água escura, as marolinhas de vento dançando na superfície. Seria até romântico, se a morte não fosse uma enorme perda de tempo.
E, além do quê, cortar os pulsos devia doer pra caralho.
Àquela altura já me arrependia de ter saído de casa. Poderia ter me arrependido. Mas depois de pensar nessas coisas, de rir imaginando o susto do guarda noturno, nesse intervalo por entre o lago, os palavrões e as pedras, enquanto chamava Lúcia de cachorra, de puta, encontrei a carta. Ali, caída ao lado de um banco, pisoteada sem querer.
A princípio, confesso, não dei muita bola. Aquele envelope sujo, caído ao lado de um banco em um parque vazio, no dia nove de julho de um ano qualquer, a princípio, bem a princípio, não chamou minha atenção. Se fosse importante ou ao menos interessante não estaria por ali assim, jogado simplesmente.
Na realidade, o próprio envelope era ordinário. Desses que vendem nas agências dos correios ou em papelarias. Quem o visse caído, pisoteado, sujo, pensaria, como eu pensei, que se tratava de alguma propaganda. Algum político pedindo voto. Criança Esperança. Teleton. Doe-dez-reais-para-alimentar-as-virgens-carentes-do-Himalaia ou algo do tipo. Havia, porém, a pequenina possibilidade de não ser descaso, de ser descuido.
Peguei o envelope mais mecanicamente que por interesse, como acontece nessas situações. Uma letra feminina se fazia bordar por entre CEPs e endereços. Era uma letra bem redonda, confiante. As perninhas dos “as” mais puxadas que as das outras letras. Dizem que as letras revelam muito sobre as pessoas. Quando escrevo a mão –o que raramente faço-, vejo letras miúdas, tortas, agarradas, ilegíveis. Lúcia tinha letras enormes, dessas que se impõe, que gritam, que enchem o saco. Essas não, eram suaves e ao mesmo tempo diretas. Provavelmente pertenciam a alguém interessante, inteligente. Sexy.
Ri sozinho.
_Eu tou viajando.
Limpei o envelope: ela não tinha escrito nomes, só endereços. Chequei a data. Acho que a essa altura é um tanto óbvio: nove de julho. Isso significava que a dona daquela carta, daquelas letras, estivera sentada ali, naquele banco, há algumas horas ou até mesmo há alguns minutos. Provavelmente estava sentada ali enquanto eu jogava pedras no lago, chutava pedras no caminho, xingava Lúcia.
Olhei ao redor. Ninguém. Dei até umas voltas, fingindo que só andava por aí e não encontrei ninguém. Imagino se fosse verão, o parque cheio, aquela quantidade de pombos por todo o lugar, pipoca e algodão doce, eu iria acabar parando a primeira menininha bonitinha que encontrasse e com a maior cara de pau do mundo iria dizer "oi, acho que você perdeu isso", esperando que ela me pegasse no colo, me levasse pra cama e, ah. Eu andava carente.


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