quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Carta - Capítulo 3

Ok, pessoas: atraso. Natural partindo de mim.
Esse nosso folhetim foi originalmente programado para ser escrito por duas mãos. Uma minha -óbvio-, a outra da Helena, figurinha adorável do sul do país que por levar uma vida de abusos (jornalista, doutoranda, professora universitária... vida?) desapareceu e encontra-se inacessível. O que fazer? Simples, recorra a uma outra escritora tão talentosa quanto: Clara Mazini, carioca da gema de quem sou fã assumido. E eis o resultado.
Às duas inspiradas (e inspiradoras), talentosas, lindas -e pra casar- escritoras (a Lê já ta casando), meu muitíssimo obrigado. Pra vocês, leitores (mais de três!), a tão esperada (?) carta:

Três – A carta

, eu não sei como começar isso. com letra maiúscula não pode ser, porque milhares de coisas já passaram pela minha cabeça e não sei qual veio primeiro. não faz sentido determinar uma hierarquia das letras por causa de uma pontuação. o pensamento sempre vem primeiro que a gramática. bom, vou escrever com letras maiúsculas o que eu achar que merece.

realmente a denise está certa, adoro dar explicações da minha vida. acabei de começar essa carta explicando o porquê de começar uma carta – e a maldita vírgula. realmente dou explicações da minha vida pra todo mundo. ontem mesmo, com aquele mendigo meio caricato que fica pedindo dinheiro no sinal da avenida osvaldo cruz... ao invés de dizer “não” comecei com o discurso “ah, eu tô totalmente dura. vou ter que pegar um ônibus porque só tenho o vale, e ele já ta acabando, por sinal”. ENFIM, chega disso.

acho que vale a pena dizer agora que... essa carta poderia ser pra qualquer um. aposto que você imaginou que se tratava de um bilhete romântico or something, né? mas nós somos contemporâneos demais pra isso. achamos que um filme besta com a Meg Rian é a verdadeira tradução do amor romântico e dividir as batatas fritas murchas do mac donald´s representa o símbolo de cumplicidade entre casais. então esquece isso de carta de amor.

ontem fiz uma coisa terrível.

mas não vou dizer o que. todos nós fazemos coisas terríveis todos os dias e não nos damos conta porque achar cinco minutos pra ter peso na consciência pode atrapalhar nossos planos, certo? ir pro trabalho, levar o carro pra lavar, comprar meias novas e avaliar criticamente a própria existência. não, é melhor substituir o último item por “comprar meu iogurte diet”.

ontem vi um cachorro na rua, um vira-lata. era como todos os vira-latas, e isso já bastou pra acabar comigo. o coitado estava imundo e quando me dei conta, estava com tanta pena que queria dizer pra alguém. mas não me animei. queria sentir um entendimento imediato de quem ouvisse minha reclamação, e acho que ninguém por perto conseguiria. enfim, ainda estou mal pelo cachorro. mas que merda.

se você teve o mínimo de curiosidade de pegar um envelope no chão, talvez entenda o lance do cachorro. quem sabe? ando com preguiça das pessoas, acho que é isso. e está frio pra caralho. Quando você vê um filme do woody allen em pleno inverno nova yorkino você acha lindo e compra um belo casaco só pra garantir. mas ninguém te diz como o seu nariz pode ficar dormente e vermelho no inverno brabo dessa cidade. o cinema é bom, mas fode um pouco com a nossa cabeça. A gente começa a esperar um plano seqüência de grandes emoções na sua vida e fica sempre no “e...”? Agora eu sei porque nunca ninguém filmou o Marlon Brando comprando aipo no supermercado.

preciso ir, meus dedos estão ficando rebeldes por causa do frio. olhei minha letra agora e realmente a odiei. odeio o frio.

Mentira.

vou deixar essa carta porque se a levar pra casa corro o risco de me sentir patética demais quando a redescobrir no meio da minha gaveta de entulhos. Todo mundo tem uma gaveta assim, né? que só serve pra amontoar coisas. a gaveta do vamos-tentar-esquecer.

mas também corro o risco de deixar a carta e ninguém ler. aí eu não sei como seria...

...

Fiquei pensando cinco minutos e já sei. em um mês volto e você me responde se leu. é só deixar outra carta no mesmo lugar. não sei se ficou claro, mas a resposta seria escrita também. Se topas, não tente gracinhas. Posso ser perigosa. Onde já se viu escrever carta pra ninguém, né?

Deixa a sua resposta e volte em uma semana pra pegar a minha.

Bom, vamos ver se alguém ainda sabe escrever cartas.

A.

.

N.E:
postagem nova lá pra sexta-feira da semana que vem (isso ainda tem hífen?), ok?
N.E²: Maldito acordo ortográfico.