sexta-feira, 17 de abril de 2009

A Carta - Capítulo 4

Quatro – Agosto

Ainda em julho invadi o apartamento com a carta em mãos, imaginando o que fazer. Como não sabia e não queria atravessar dilemas morais sobre abrir ou não o envelope, violentar ou não violentar aquelas letrinhas, joguei a carta no fundo da gaveta e esqueci. E como não prestava atenção, ela não existia.

Confesso que nos primeiros minutos, nos primeiros dias, sofria daquele comichão de curiosidade que quase tira o sono da gente. Uma ou duas vezes, levantei da cama de madrugada para finalmente abrir a carta com cuidado, de forma que, se o que estivesse ali escrito fosse realmente importante, a confissão de um criminoso ou um mapa de um tesouro, eu poderia fechá-lo com cola e ninguém perceberia. Simplesmente incineraria o documento e dormiria sem medo, seja do criminoso ou do pirata. Por essas vezes o sono foi mais forte e sem sair do quarto voltei para cama. A carta incólume.

Naquele mês eu tinha certa pressa. O livro novo de um autor inglês de mistérios andava estourado no mundo inteiro, vendendo milhões, como se as pessoas ainda se ocupassem em ler. Meus prazos andavam no limite e eu não conseguia trabalhar. Tudo era Lúcia, Lúcia, Lúcia e um tantinho de solidão que invadia o apartamento cada vez maior. De dia as paredes alargavam tremendamente, me afastando de tudo, um ponto escuro em meio ao infinito branco, tristíssimo. À noite, batido e machucado, as paredes fechavam, surgia o misterioso cheiro de alecrim e eu era claustrofóbicamente sufocado até dormir um sono bêbado, tranqüilo, terapêutico, sem sonho algum. No dia seguinte acordava e tudo começava de novo.

Minha cara branca andava cada vez mais branca, meus olhos fundos cada vez mais fundos. A barba eu não fazia há tempos e o cabelo necessitava de corte, mas eu já começava achar charmoso meu visual deprê-largadão. Escolhia um disco com cuidado, acendia um cigarro e sentava no sofá, dedicado a bolar um plano mirabolante para ter Lúcia de volta. Pode soar absurdo, mas digo que eu era até mesmo feliz no sofrimento. No fundo eu curtia aquilo. E ia curtindo. Até o telefone tocar.

Não, não era Lúcia. Uma editora preocupada perguntava do trabalho e, como sempre, menti. Tudo ótimo, no prazo, sem problemas. Foi o caos. Trabalhei dobrado, virei noites, mal comia. Posso dizer que por vários dias nem banho tomei. Vivi quinze dias de puro torpor, não sentia cansaço, não sentia nada. Só via as centenas de páginas mal escritas pelo famosíssimo autor inglês de livros de mistério.

Trabalho pronto, entregue, cheque depositado. Quis sair pra comemorar, mas desisti. Sou de ir sempre para os mesmos lugares e dava uma certa preguiça, não queria ver ninguém. Tampouco queria conhecer algum lugar novo. Dei uma volta e comprei um livro que andava querendo ler a algum tempo. Voltei para casa, escolhi um disco, acendi um cigarro, abri o livro. Estava lendo, distraído, e quase não percebi. Talvez pudesse ter lavado a louça, escrito um poema e não iria perceber: as paredes fechavam aos pouquinhos. Alecrim. Deus, Lúcia retornava.

Imagino a cena no cinema. Tudo passando rápido demais, propositalmente acelerado. A garrafa se abrindo, uma, três, cinco doses, a mão abrindo a gaveta, as mãos abrindo o envelope e imediatamente eu estava aqui, a carta em mãos, lia a assinatura. “A.”

Uma carta para ninguém. Ou para todo mundo. Quem seria “A.”? Alguma louca, certeza.

Fazia exatamente um mês que encontrei o envelope lacrado, caído no chão do parque, sem nomes, somente endereços e CEPs de lugares que, provavelmente, não existiam. Olhei o relógio: duas da manhã. O parque abre as 7. Eu tinha cinco horas para escrever, andar oito quarteirões e deixar minha resposta no lugar combinado.

Era certo que eu responderia a carta. Como resistir? Pensei em armar tocaia, esperando ela –só poderia ser ela, a caligrafia denunciava- aparecer para pegar a carta e desvendar o mistério. Mas sem mistério qual a graça?

Tive idéias malucas sobre como seriam nossas correspondências. Faríamos assim: não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não nos veríamos. Ficaríamos íntimos. Trocaríamos cartas falando das nossas vidas, oi meu bem, como foi seu dia? A noite inteira debruçados sobre o papel, lendo, rindo, escrevendo. Eu tentando parecer inteligente, ela cada vez menos cínica, se mostrando sensível, um senso de humor agudo. Dali a pouco nos apaixonaríamos perdidamente. Primeiramente seria um amor platônico, ridículo, inconfesso. Quando o peito não agüentasse mais, tremendo, eu iria, de caneta nova, as letras trêmulas, rabiscar as palavras: te amo. Te amo. Te amo. Talvez eu arriscasse até um poema. Minhas unhas roídas de esperar o dia certo para buscar a carta no parque, andando pra lá e pra cá, a sola do sapato marcando o mogno velho do piso. Fumaria incessantemente, o conhaque circulando no copo manejado por mãos nervosas. Finalmente chegaria a carta esperada. O papel perfumado diria ‘te amo também’. Então eu iria comemorar as letras redondas, com o pézinho do ‘a’ sempre puxado no final das palavras. Enviaria um CD gravado com músicas que lembrariam nós dois e a nossa relação maluca. Dentro do envelope uma mecha de cabelo. Mas, ainda assim, não nos veríamos. Não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não poderíamos permitir que um penteado errado, um gesto brusco, uma manhã de mau humor estragasse o que seria tão perfeito. Nos imaginaríamos sem falhas, sem sotaques absurdos ou vozes desafinadas. Passaríamos as noites aflitas, as mãos entre as pernas, cultivando o desejo das línguas por nossos corpos, do cheiro do sexo, das mãos que bailariam, obscenas. Sentiríamos falta naquela noite fria, carente. Tomaríamos sorvete sozinhos, iríamos sozinhos à pizzaria, pediríamos um chope. Sozinhos. Eu iria imaginar os olhos grandes, a boca pequena, os cabelos castanhos e encaracolados caindo sobre os ombros. Ela iria fantasiar comigo a acordando pela manhã, beijando seus seios. Minha barba mal feita arranhando de leve a pele sensível. Ela perdida nos meus olhos fundos. Não trocaríamos fotografias, não poderíamos. Não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não nos veríamos. Não poderíamos estragar o que seria tão perfeito.

Eu andava cada dia mais patético.