terça-feira, 31 de março de 2009

A Carta - Capítulo 2

Capítulo 02, também enorme. Nesse capítulo, entre uma e outra dose, nosso intrépido herói apresenta Lúcia e promete que o capítulo 03 não será tão longo assim (pelo menos é o que ele espera, afinal ele precisa segurar três leitores interessados até o fim!).

Dois – o Apartamento

As janelas escancaradas, o vento bagunça seus cabelos. Do alto, o sétimo andar.

Pausa.

Meu apartamento é o 703 do edifício Juscelino Kubitschek, logo ali, perto do centro. São exatamente quatro apartamentos por andar, bem dispostos nos doze andares do prédio. Lá embaixo, uma área com uma piscina pra inglês ver, já que nunca vi ninguém nadando ali, se bronzeando ali, sequer passando por ali. Provavelmente só limpam a piscina no natal, quando ainda está frio e a grande maioria dos inquilinos viajando.

O AP é simples. São dois quartos, uma sala conjugada com a cozinha, uma copa, creio que conjugada com a sala, dois banheiros (um dos quartos é suíte) e só. Claro, tem o corredor. Tudo muito velho, do encanamento ao piso, passando pelas infiltrações e os meus móveis. Poucos móveis, aliás. Sempre pensei que quanto mais móveis tivesse, mais trabalho teria pra limpar, então preferi me ater ao básico sofá-mesa-cama-hack-pra-tevê. Nada muito colorido, nada espalhafatoso. Um quadro aqui e ali, algumas fotos. Um dos quartos transformados em escritório; fim. Uma biblioteca modesta. Um bar decente. Whisky, tequila, vodka, vinho e cointreau. O suficiente para suportar essa vida de morador de apartamento.

É fácil identificar um morador de apartamento, é só procurar pelos mais neuróticos. Um sem número de pessoas morando sobre outro sem número de pessoas, compactados, comprimidos, se cruzando diariamente no lobby, no estacionamento e no elevador. Ninguém se conhece, ninguém sabe seu nome. Caso você, ousado, arrisque um bom dia, te olham assustados, como se você (ou eu) fosse um psicopata por, imagina, ter educação. Sempre tive a teoria de que as pessoas que vivem em casas, com direito a quintal, oi-vizinho-como-vai-você, tem muito menos chances de deitar no divã do analista. Não, não faço análise, nem tenho grandes problemas ou algo do tipo, só os mais elementares e naturais, umas inseguranças, coisas assim. Sabe, eu trabalho em casa. É um pouco solitário. Faço traduções de livros para uma editora famosa. Ganho por página. Não que eu receba fortunas, ou não estaria morando aqui, no Kubitschek. Dá pra viver. Dá pra sair de vez em quando, pagar o IPVA do carro, pegar um táxi quando ficar bêbado demais para dirigir, tomar cerveja, comer uma pizza na quarta com alguns ex-colegas de faculdade. A princípio parecia ótimo, mas agora, quase aos trinta, é um tanto deprimente. Da mesma forma é um tanto deprimente, quase aos trinta, aceitar algum convite e sair para dançar porque, aparentemente, as outras pessoas quase aos trinta desapareceram desses lugares. Eu nunca soube dançar também. Não importa. A única razão que me levava a lugares de música alta e pouca luz era beber e, bêbado, tentar convencer alguma mulher a conhecer o meu apartamento. Algumas vezes funcionava.

Conheci Lúcia assim, em uma boate, há uns três anos, quando eu ainda ia a boates. Trocamos beijos e telefones e as coisas foram acontecendo. De repente ela aparecia. Geralmente nos piores momentos. Enquanto eu fechava uma página, enquanto eu estava no banho. Algumas vezes ela aparecia de madrugada, o interfone gritando – era ela, Lúcia. Às vezes vinha, me enchia de beijos, me contava como foi o dia, cozinhava pra mim. Outras vezes chegava calada, pra dormir. E dormia. E só dormia. Esse era o momento em que eu verdadeiramente a adorava. Observava, devoto, os cílios longos, os cabelos curtos, pretíssimos, estilo channel, o batom sempre escuro, as unhas pintadas de preto ou café. Me encostava nela com cuidado, para que não acordasse, e acertava a geometria dos nossos corpos. Minhas mãos iam automaticamente aos seus seios, pequenos. Então eu fechava os olhos e inspirava aquele perfume, aquele cheiro de rua, fumaça e cansaço. Inspirava seus cabelos e dormia feliz.

Antes que percebêssemos ela já morava aqui.

Me acostumei depressa ao seu jeito. Reclamava sempre do meu cheiro de cigarro, das roupas pelo chão. Da minha falta de ambição. Espalhava bilhetes pelo apartamento com ordens: comprar desinfetante, trocar a lâmpada, espanar isso, consertar aquilo. Algumas vezes gritava. À noite, calada, me massageava as costas, me beijava a nuca, trazia chá. Outras vezes me contava de algum livro que andava lendo, falava dos personagens como se fossem seus conhecidos, quase com carinho (ou com ódio) e assim, ying-yang, Lúcia me parecia perfeita.

A falta que Lúcia me fazia era perceptível no lodo acumulado no ralo do banheiro, no pó da estante. As paredes do apartamento iam fechando à minha volta lentamente, me apertando, me sufocando. Repentinamente um cheiro de alecrim dominava o ambiente. Minha mente projetava Lúcia em todos os cantos, me intoxicando aos pouquinhos. A cabeça doía. A cura só era possível depois da quarta dose, quando tudo ficava gelatinoso, como um caramujo passeando na janela.

Em um dia assim, enquanto chovia lá fora, depois da quinta dose de whisky, procurando uma caneta, o tato percebeu o papel e ela apareceu entre os meus dedos, como que por mágica. Já fazia um mês que repousava ali, no fundo da gaveta. Há exatos 31 dias eu chegara do parque, ligara a tevê e me esquecera completamente dela.

Algumas vezes a curiosidade devora mais que a consciência. As palmas das mãos coçavam. Depois da quinta dose, o peito ardia. Dancei os dedos sobre o papel, a tentação era enorme. Foi com uma espécie estranha de prazer e culpa, como se subisse as mãos sobre as coxas de uma adolescente, que devassei o envelope.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A Carta - Capítulo 1

Inicio aqui e agora a maior, mais ambiciosa e provavelmente mais mal sucedida série desse blog, meu primeiro longa metragem que, como vocês podem ver, será desenvolvida em capítulos (espero eu de no máximo 10), queria eu um por semana, e não necessariamente em sequência, podendo ser interrompida por textos esparsos. Espero que ao menos três pessoas tenham saco o suficiente para ler até o final e sobrevivam ao primeiro capítulo que, por ser o primeiro, acabou ficando grande pra xuxu.

Me desejem sorte.

dedicado ao verme que primeiro roeu as frias carnes do cadáver de Brás Cubas.

dedicado, especialmente, à tchurma do Tripé.

Um – O parque

Era uma tarde, talvez. Talvez fosse manhãzinha.

Lembro do verde do parque, do amarelo dos táxis, o contraste com o cinza dos prédios e o céu semi-cinza de julho. Com o passar do tempo os pequenos detalhes se embaralham e fica tudo um tanto nublado.

Há alguns dias, a garota do tempo, exibindo seu tailleur bem cortado, essas coisas de jornal televisivo pra depois da novela das seis, que você é obrigado a assistir porque não tem mais nada passando na TV (talvez seja hora de assinar TV a cabo, ou, quem sabe, a satélite –qualidade digital e mais de trezentos canais), avisava que faria um frio terrível, cínico, desses frios de julho como só quem mora por aqui deve conhecer. As pontas dos dedos ficam arroxeadas, o vento corta a pele, a geada deixa uma camada fina de gelo sobre as folhas das árvores, fica tudo meio melancólico, te convidando para um conhaque, uma lareira. Claro que me falta a lareira, só me sobra o conhaque, mas deu pra você entender.

O frio tem o curioso poder de espantar as pessoas das ruas. Fica tudo vazio, quase sem gente, os mendigos embrulhados em seus cobertores e jornais e só. Toda uma multidão entra em um estado de hibernação imperturbável, quase sagrado.

Foi por isso, por essa plenitude, pela oportunidade de ter a cidade só pra mim, que resolvi abandonar os edredons, calçar minhas luvas e dar uma volta por aí.

Aquele dia, disso eu tenho certeza, era um domingo. Nove de julho. Fazia exatamente uma semana que não falava com Lúcia. Eu andava naquela fase patético-contemplativa de quem acaba de levar um pé na bunda e não sabe se bebe, se ri ou se chora. Na dúvida, um longo suspiro; fui ao parque.

O parque, bem, era nosso lugar preferido. Dava aquela sensação cinematográfica de romance, como os romances deveriam ser: beijos, balões cor de rosa e céu azul.

Naquele domingo em especial não havia cores, só um tom sépia por toda parte. Andando devagarzinho, de forma o frio machucar menos, assistindo minha respiração subir em forma de vapor, os fones de ouvido a postos, cruzei o portão de grades escuras, sozinho. Andei, andei e andei, vi o lago sem os marrecos, fumei uns quatro cigarros, me perguntei o que Lúcia andaria fazendo em um domingo tão gelado. Provavelmente dando pra alguém.

Piranha.

Chutei pedrinhas.

O céu mezzo azul, mezzo cinza, sem sol e sem nuvens. Julho sempre é um tanto caótico por aqui, nesse pedaço do mapa. Por aqui um parque vazio em mês de julho é o mais legítimo incentivo ao suicídio. A solidão representada, caracterizada e satirizada em uma única tarde. Ou seria manhã? Um grande convite, os pulsos cortados e o corpo pra lá de gelado encontrado pelo guarda noturno, sentado em um banco de frente pro lago de água escura, as marolinhas de vento dançando na superfície. Seria até romântico, se a morte não fosse uma enorme perda de tempo.

E, além do quê, cortar os pulsos devia doer pra caralho.

Àquela altura já me arrependia de ter saído de casa. Poderia ter me arrependido. Mas depois de pensar nessas coisas, de rir imaginando o susto do guarda noturno, nesse intervalo por entre o lago, os palavrões e as pedras, enquanto chamava Lúcia de cachorra, de puta, encontrei a carta. Ali, caída ao lado de um banco, pisoteada sem querer.

A princípio, confesso, não dei muita bola. Aquele envelope sujo, caído ao lado de um banco em um parque vazio, no dia nove de julho de um ano qualquer, a princípio, bem a princípio, não chamou minha atenção. Se fosse importante ou ao menos interessante não estaria por ali assim, jogado simplesmente.

Na realidade, o próprio envelope era ordinário. Desses que vendem nas agências dos correios ou em papelarias. Quem o visse caído, pisoteado, sujo, pensaria, como eu pensei, que se tratava de alguma propaganda. Algum político pedindo voto. Criança Esperança. Teleton. Doe-dez-reais-para-alimentar-as-virgens-carentes-do-Himalaia ou algo do tipo. Havia, porém, a pequenina possibilidade de não ser descaso, de ser descuido.

Peguei o envelope mais mecanicamente que por interesse, como acontece nessas situações. Uma letra feminina se fazia bordar por entre CEPs e endereços. Era uma letra bem redonda, confiante. As perninhas dos “as” mais puxadas que as das outras letras. Dizem que as letras revelam muito sobre as pessoas. Quando escrevo a mão –o que raramente faço-, vejo letras miúdas, tortas, agarradas, ilegíveis. Lúcia tinha letras enormes, dessas que se impõe, que gritam, que enchem o saco. Essas não, eram suaves e ao mesmo tempo diretas. Provavelmente pertenciam a alguém interessante, inteligente. Sexy.

Ri sozinho.

_Eu tou viajando.

Limpei o envelope: ela não tinha escrito nomes, só endereços. Chequei a data. Acho que a essa altura é um tanto óbvio: nove de julho. Isso significava que a dona daquela carta, daquelas letras, estivera sentada ali, naquele banco, há algumas horas ou até mesmo há alguns minutos. Provavelmente estava sentada ali enquanto eu jogava pedras no lago, chutava pedras no caminho, xingava Lúcia.
Olhei ao redor. Ninguém. Dei até umas voltas, fingindo que só andava por aí e não encontrei ninguém. Imagino se fosse verão, o parque cheio, aquela quantidade de pombos por todo o lugar, pipoca e algodão doce, eu iria acabar parando a primeira menininha bonitinha que encontrasse e com a maior cara de pau do mundo iria dizer "oi, acho que você perdeu isso", esperando que ela me pegasse no colo, me levasse pra cama e, ah. Eu andava carente.