quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Carta - Capítulo 5

Cinco – O dia em que a tinta encontrou o papel

09 de agosto

Faz frio.

Não acho que você acreditaria que por todo esse tempo eu deixei sua carta guardada, inviolada, no fundo de uma gaveta. Só fui abrir agora, de madrugada, no último dia do prazo, impulsionado por uma garrafa de conhaque que já passou da metade e deixa minha caligrafia já torta ainda mais torta. Ignorar uma carta fechada vai contra a natureza humana, é inexplicável eu sei. Mas me redimo. E escrevo.

Não sei o que esperava ao abrir a carta. Uma carta de amor? Meg Ryan, McDonalds? Talvez. Talvez uma confissão, um pedido de desculpas. Notícias daqui para algum lugar distante. Nunca imaginei uma carta para ninguém. Ou, melhor, uma carta para mim?

Passei os primeiros minutos olhando para o papel, imaginando como escrever para uma completa desconhecida e descobri que só há uma única alternativa: ser absolutamente sincero.

Não. Eu não sou uma boa pessoa. Não que eu seja um criminoso contumaz ou um sociopata, nada tão digno de nota. Não sou louco. Ou talvez seja, afinal. Se não o fosse eu estaria escrevendo para alguém que não conheço, às 3 da manhã, ainda quando essa pessoa, com algum remorso, diz: “ontem fiz uma coisa terrível”?

Abramos pois a caixa de Pandora. Vou lhe confessar um crime, nada, nada fácil de confessar, especialmente para quem sentiu tamanha compaixão por um vira-lata imundo.

Há alguns meses, uns dois ou três meses, eu vinha do centro para casa, o som do carro ligado, ouvindo Coltrane. Sabe, nessa época eu tinha alguém, digo, vivia com alguém, uma mulher. Acho que eu era feliz.

Era noite e eu levava comida chinesa para casa –ela adorava comida chinesa. Foi quando eu senti um tranco, toda a comida dançou pelo carro, sujando os bancos, minha roupa. Uma bagunça. Pelo retrovisor, enquanto eu limpava o yakisoba ainda quente do nariz, olhando todo a sujeira espalhada dentro do carro, imaginando o estado do meu pára-choque, eu vi um cachorro, um vira-lata, talvez irmão do seu vira-lata imundo, esticado no chão, se arrastando devagarinho até parar, morto.

Não me perguntei como pude não ver o animal, não senti pena, senti raiva. Fiquei quase alegre ao vê-lo ali, inerte, sem respirar. Me senti vingado.

Não. Quem te escreve não é uma boa pessoa.

Como você bem disse, todos nós fazemos coisas terríveis. Os seus pecados não podem ser tão grandes assim.

Semana que vem vou ao parque, espero que você não assuste e que eu encontre outra carta ao pé do banco.

Com os cumprimentos de uma pessoa sã;

Pedro.

P.s.: detesto Woody Allen.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A Carta - Capítulo 4

Quatro – Agosto

Ainda em julho invadi o apartamento com a carta em mãos, imaginando o que fazer. Como não sabia e não queria atravessar dilemas morais sobre abrir ou não o envelope, violentar ou não violentar aquelas letrinhas, joguei a carta no fundo da gaveta e esqueci. E como não prestava atenção, ela não existia.

Confesso que nos primeiros minutos, nos primeiros dias, sofria daquele comichão de curiosidade que quase tira o sono da gente. Uma ou duas vezes, levantei da cama de madrugada para finalmente abrir a carta com cuidado, de forma que, se o que estivesse ali escrito fosse realmente importante, a confissão de um criminoso ou um mapa de um tesouro, eu poderia fechá-lo com cola e ninguém perceberia. Simplesmente incineraria o documento e dormiria sem medo, seja do criminoso ou do pirata. Por essas vezes o sono foi mais forte e sem sair do quarto voltei para cama. A carta incólume.

Naquele mês eu tinha certa pressa. O livro novo de um autor inglês de mistérios andava estourado no mundo inteiro, vendendo milhões, como se as pessoas ainda se ocupassem em ler. Meus prazos andavam no limite e eu não conseguia trabalhar. Tudo era Lúcia, Lúcia, Lúcia e um tantinho de solidão que invadia o apartamento cada vez maior. De dia as paredes alargavam tremendamente, me afastando de tudo, um ponto escuro em meio ao infinito branco, tristíssimo. À noite, batido e machucado, as paredes fechavam, surgia o misterioso cheiro de alecrim e eu era claustrofóbicamente sufocado até dormir um sono bêbado, tranqüilo, terapêutico, sem sonho algum. No dia seguinte acordava e tudo começava de novo.

Minha cara branca andava cada vez mais branca, meus olhos fundos cada vez mais fundos. A barba eu não fazia há tempos e o cabelo necessitava de corte, mas eu já começava achar charmoso meu visual deprê-largadão. Escolhia um disco com cuidado, acendia um cigarro e sentava no sofá, dedicado a bolar um plano mirabolante para ter Lúcia de volta. Pode soar absurdo, mas digo que eu era até mesmo feliz no sofrimento. No fundo eu curtia aquilo. E ia curtindo. Até o telefone tocar.

Não, não era Lúcia. Uma editora preocupada perguntava do trabalho e, como sempre, menti. Tudo ótimo, no prazo, sem problemas. Foi o caos. Trabalhei dobrado, virei noites, mal comia. Posso dizer que por vários dias nem banho tomei. Vivi quinze dias de puro torpor, não sentia cansaço, não sentia nada. Só via as centenas de páginas mal escritas pelo famosíssimo autor inglês de livros de mistério.

Trabalho pronto, entregue, cheque depositado. Quis sair pra comemorar, mas desisti. Sou de ir sempre para os mesmos lugares e dava uma certa preguiça, não queria ver ninguém. Tampouco queria conhecer algum lugar novo. Dei uma volta e comprei um livro que andava querendo ler a algum tempo. Voltei para casa, escolhi um disco, acendi um cigarro, abri o livro. Estava lendo, distraído, e quase não percebi. Talvez pudesse ter lavado a louça, escrito um poema e não iria perceber: as paredes fechavam aos pouquinhos. Alecrim. Deus, Lúcia retornava.

Imagino a cena no cinema. Tudo passando rápido demais, propositalmente acelerado. A garrafa se abrindo, uma, três, cinco doses, a mão abrindo a gaveta, as mãos abrindo o envelope e imediatamente eu estava aqui, a carta em mãos, lia a assinatura. “A.”

Uma carta para ninguém. Ou para todo mundo. Quem seria “A.”? Alguma louca, certeza.

Fazia exatamente um mês que encontrei o envelope lacrado, caído no chão do parque, sem nomes, somente endereços e CEPs de lugares que, provavelmente, não existiam. Olhei o relógio: duas da manhã. O parque abre as 7. Eu tinha cinco horas para escrever, andar oito quarteirões e deixar minha resposta no lugar combinado.

Era certo que eu responderia a carta. Como resistir? Pensei em armar tocaia, esperando ela –só poderia ser ela, a caligrafia denunciava- aparecer para pegar a carta e desvendar o mistério. Mas sem mistério qual a graça?

Tive idéias malucas sobre como seriam nossas correspondências. Faríamos assim: não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não nos veríamos. Ficaríamos íntimos. Trocaríamos cartas falando das nossas vidas, oi meu bem, como foi seu dia? A noite inteira debruçados sobre o papel, lendo, rindo, escrevendo. Eu tentando parecer inteligente, ela cada vez menos cínica, se mostrando sensível, um senso de humor agudo. Dali a pouco nos apaixonaríamos perdidamente. Primeiramente seria um amor platônico, ridículo, inconfesso. Quando o peito não agüentasse mais, tremendo, eu iria, de caneta nova, as letras trêmulas, rabiscar as palavras: te amo. Te amo. Te amo. Talvez eu arriscasse até um poema. Minhas unhas roídas de esperar o dia certo para buscar a carta no parque, andando pra lá e pra cá, a sola do sapato marcando o mogno velho do piso. Fumaria incessantemente, o conhaque circulando no copo manejado por mãos nervosas. Finalmente chegaria a carta esperada. O papel perfumado diria ‘te amo também’. Então eu iria comemorar as letras redondas, com o pézinho do ‘a’ sempre puxado no final das palavras. Enviaria um CD gravado com músicas que lembrariam nós dois e a nossa relação maluca. Dentro do envelope uma mecha de cabelo. Mas, ainda assim, não nos veríamos. Não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não poderíamos permitir que um penteado errado, um gesto brusco, uma manhã de mau humor estragasse o que seria tão perfeito. Nos imaginaríamos sem falhas, sem sotaques absurdos ou vozes desafinadas. Passaríamos as noites aflitas, as mãos entre as pernas, cultivando o desejo das línguas por nossos corpos, do cheiro do sexo, das mãos que bailariam, obscenas. Sentiríamos falta naquela noite fria, carente. Tomaríamos sorvete sozinhos, iríamos sozinhos à pizzaria, pediríamos um chope. Sozinhos. Eu iria imaginar os olhos grandes, a boca pequena, os cabelos castanhos e encaracolados caindo sobre os ombros. Ela iria fantasiar comigo a acordando pela manhã, beijando seus seios. Minha barba mal feita arranhando de leve a pele sensível. Ela perdida nos meus olhos fundos. Não trocaríamos fotografias, não poderíamos. Não nos falaríamos. Não nos tocaríamos. Não nos veríamos. Não poderíamos estragar o que seria tão perfeito.

Eu andava cada dia mais patético.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Carta - Capítulo 3

Ok, pessoas: atraso. Natural partindo de mim.
Esse nosso folhetim foi originalmente programado para ser escrito por duas mãos. Uma minha -óbvio-, a outra da Helena, figurinha adorável do sul do país que por levar uma vida de abusos (jornalista, doutoranda, professora universitária... vida?) desapareceu e encontra-se inacessível. O que fazer? Simples, recorra a uma outra escritora tão talentosa quanto: Clara Mazini, carioca da gema de quem sou fã assumido. E eis o resultado.
Às duas inspiradas (e inspiradoras), talentosas, lindas -e pra casar- escritoras (a Lê já ta casando), meu muitíssimo obrigado. Pra vocês, leitores (mais de três!), a tão esperada (?) carta:

Três – A carta

, eu não sei como começar isso. com letra maiúscula não pode ser, porque milhares de coisas já passaram pela minha cabeça e não sei qual veio primeiro. não faz sentido determinar uma hierarquia das letras por causa de uma pontuação. o pensamento sempre vem primeiro que a gramática. bom, vou escrever com letras maiúsculas o que eu achar que merece.

realmente a denise está certa, adoro dar explicações da minha vida. acabei de começar essa carta explicando o porquê de começar uma carta – e a maldita vírgula. realmente dou explicações da minha vida pra todo mundo. ontem mesmo, com aquele mendigo meio caricato que fica pedindo dinheiro no sinal da avenida osvaldo cruz... ao invés de dizer “não” comecei com o discurso “ah, eu tô totalmente dura. vou ter que pegar um ônibus porque só tenho o vale, e ele já ta acabando, por sinal”. ENFIM, chega disso.

acho que vale a pena dizer agora que... essa carta poderia ser pra qualquer um. aposto que você imaginou que se tratava de um bilhete romântico or something, né? mas nós somos contemporâneos demais pra isso. achamos que um filme besta com a Meg Rian é a verdadeira tradução do amor romântico e dividir as batatas fritas murchas do mac donald´s representa o símbolo de cumplicidade entre casais. então esquece isso de carta de amor.

ontem fiz uma coisa terrível.

mas não vou dizer o que. todos nós fazemos coisas terríveis todos os dias e não nos damos conta porque achar cinco minutos pra ter peso na consciência pode atrapalhar nossos planos, certo? ir pro trabalho, levar o carro pra lavar, comprar meias novas e avaliar criticamente a própria existência. não, é melhor substituir o último item por “comprar meu iogurte diet”.

ontem vi um cachorro na rua, um vira-lata. era como todos os vira-latas, e isso já bastou pra acabar comigo. o coitado estava imundo e quando me dei conta, estava com tanta pena que queria dizer pra alguém. mas não me animei. queria sentir um entendimento imediato de quem ouvisse minha reclamação, e acho que ninguém por perto conseguiria. enfim, ainda estou mal pelo cachorro. mas que merda.

se você teve o mínimo de curiosidade de pegar um envelope no chão, talvez entenda o lance do cachorro. quem sabe? ando com preguiça das pessoas, acho que é isso. e está frio pra caralho. Quando você vê um filme do woody allen em pleno inverno nova yorkino você acha lindo e compra um belo casaco só pra garantir. mas ninguém te diz como o seu nariz pode ficar dormente e vermelho no inverno brabo dessa cidade. o cinema é bom, mas fode um pouco com a nossa cabeça. A gente começa a esperar um plano seqüência de grandes emoções na sua vida e fica sempre no “e...”? Agora eu sei porque nunca ninguém filmou o Marlon Brando comprando aipo no supermercado.

preciso ir, meus dedos estão ficando rebeldes por causa do frio. olhei minha letra agora e realmente a odiei. odeio o frio.

Mentira.

vou deixar essa carta porque se a levar pra casa corro o risco de me sentir patética demais quando a redescobrir no meio da minha gaveta de entulhos. Todo mundo tem uma gaveta assim, né? que só serve pra amontoar coisas. a gaveta do vamos-tentar-esquecer.

mas também corro o risco de deixar a carta e ninguém ler. aí eu não sei como seria...

...

Fiquei pensando cinco minutos e já sei. em um mês volto e você me responde se leu. é só deixar outra carta no mesmo lugar. não sei se ficou claro, mas a resposta seria escrita também. Se topas, não tente gracinhas. Posso ser perigosa. Onde já se viu escrever carta pra ninguém, né?

Deixa a sua resposta e volte em uma semana pra pegar a minha.

Bom, vamos ver se alguém ainda sabe escrever cartas.

A.

.

N.E:
postagem nova lá pra sexta-feira da semana que vem (isso ainda tem hífen?), ok?
N.E²: Maldito acordo ortográfico.