Cinco – O dia em que a tinta encontrou o papel
09 de agosto
Faz frio.
Não acho que você acreditaria que por todo esse tempo eu deixei sua carta guardada, inviolada, no fundo de uma gaveta. Só fui abrir agora, de madrugada, no último dia do prazo, impulsionado por uma garrafa de conhaque que já passou da metade e deixa minha caligrafia já torta ainda mais torta. Ignorar uma carta fechada vai contra a natureza humana, é inexplicável eu sei. Mas me redimo. E escrevo.
Não sei o que esperava ao abrir a carta. Uma carta de amor? Meg Ryan, McDonalds? Talvez. Talvez uma confissão, um pedido de desculpas. Notícias daqui para algum lugar distante. Nunca imaginei uma carta para ninguém. Ou, melhor, uma carta para mim?
Passei os primeiros minutos olhando para o papel, imaginando como escrever para uma completa desconhecida e descobri que só há uma única alternativa: ser absolutamente sincero.
Não. Eu não sou uma boa pessoa. Não que eu seja um criminoso contumaz ou um sociopata, nada tão digno de nota. Não sou louco. Ou talvez seja, afinal. Se não o fosse eu estaria escrevendo para alguém que não conheço, às 3 da manhã, ainda quando essa pessoa, com algum remorso, diz: “ontem fiz uma coisa terrível”?
Abramos pois a caixa de Pandora. Vou lhe confessar um crime, nada, nada fácil de confessar, especialmente para quem sentiu tamanha compaixão por um vira-lata imundo.
Há alguns meses, uns dois ou três meses, eu vinha do centro para casa, o som do carro ligado, ouvindo Coltrane. Sabe, nessa época eu tinha alguém, digo, vivia com alguém, uma mulher. Acho que eu era feliz.
Era noite e eu levava comida chinesa para casa –ela adorava comida chinesa. Foi quando eu senti um tranco, toda a comida dançou pelo carro, sujando os bancos, minha roupa. Uma bagunça. Pelo retrovisor, enquanto eu limpava o yakisoba ainda quente do nariz, olhando todo a sujeira espalhada dentro do carro, imaginando o estado do meu pára-choque, eu vi um cachorro, um vira-lata, talvez irmão do seu vira-lata imundo, esticado no chão, se arrastando devagarinho até parar, morto.
Não me perguntei como pude não ver o animal, não senti pena, senti raiva. Fiquei quase alegre ao vê-lo ali, inerte, sem respirar. Me senti vingado.
09 de agosto
Faz frio.
Não acho que você acreditaria que por todo esse tempo eu deixei sua carta guardada, inviolada, no fundo de uma gaveta. Só fui abrir agora, de madrugada, no último dia do prazo, impulsionado por uma garrafa de conhaque que já passou da metade e deixa minha caligrafia já torta ainda mais torta. Ignorar uma carta fechada vai contra a natureza humana, é inexplicável eu sei. Mas me redimo. E escrevo.
Não sei o que esperava ao abrir a carta. Uma carta de amor? Meg Ryan, McDonalds? Talvez. Talvez uma confissão, um pedido de desculpas. Notícias daqui para algum lugar distante. Nunca imaginei uma carta para ninguém. Ou, melhor, uma carta para mim?
Passei os primeiros minutos olhando para o papel, imaginando como escrever para uma completa desconhecida e descobri que só há uma única alternativa: ser absolutamente sincero.
Não. Eu não sou uma boa pessoa. Não que eu seja um criminoso contumaz ou um sociopata, nada tão digno de nota. Não sou louco. Ou talvez seja, afinal. Se não o fosse eu estaria escrevendo para alguém que não conheço, às 3 da manhã, ainda quando essa pessoa, com algum remorso, diz: “ontem fiz uma coisa terrível”?
Abramos pois a caixa de Pandora. Vou lhe confessar um crime, nada, nada fácil de confessar, especialmente para quem sentiu tamanha compaixão por um vira-lata imundo.
Há alguns meses, uns dois ou três meses, eu vinha do centro para casa, o som do carro ligado, ouvindo Coltrane. Sabe, nessa época eu tinha alguém, digo, vivia com alguém, uma mulher. Acho que eu era feliz.
Era noite e eu levava comida chinesa para casa –ela adorava comida chinesa. Foi quando eu senti um tranco, toda a comida dançou pelo carro, sujando os bancos, minha roupa. Uma bagunça. Pelo retrovisor, enquanto eu limpava o yakisoba ainda quente do nariz, olhando todo a sujeira espalhada dentro do carro, imaginando o estado do meu pára-choque, eu vi um cachorro, um vira-lata, talvez irmão do seu vira-lata imundo, esticado no chão, se arrastando devagarinho até parar, morto.
Não me perguntei como pude não ver o animal, não senti pena, senti raiva. Fiquei quase alegre ao vê-lo ali, inerte, sem respirar. Me senti vingado.
Não. Quem te escreve não é uma boa pessoa.
Como você bem disse, todos nós fazemos coisas terríveis. Os seus pecados não podem ser tão grandes assim.
Semana que vem vou ao parque, espero que você não assuste e que eu encontre outra carta ao pé do banco.
Com os cumprimentos de uma pessoa sã;
Pedro.
P.s.: detesto Woody Allen.

