terça-feira, 26 de maio de 2009

A Carta - Capítulo 7

Ok, atraso. Peço desculpas, mas nem cola, eu sei. Atraso toda semana. Pelo menos nessa eu tenho desculpas, um congresso, curso, acidente automobilísitico (o terceiro do ano, me lembrem de nunca mais andar de carona em 2009).
Mas taí, atrasado, escrito às pressas, mas taí! No mesmo bat horário, no mesmo bat canal.

Sete - O dia em que Lúcia me deixou

Ana;

Morremos um pouco todos os dias e, estranhamente, continuamos respirando. Eu poderia supor que morreria um pouquinho hoje mesmo, mas não... Sabe, a minha vida não é a mais empolgante das vidas. Não pulo de asa delta ou defendo réus, nem mesmo salvo vidas em um hospital calmamente branco, não. Traduzo livros. Eu poderia deixar uma cópia do meu último trabalho de presente se o autor não fosse péssimo. O engraçado é que anda vendendo bastante. Talvez até você já tenha lido, quem sabe? Mas não é sempre assim? Sempre os piores autores são os que vendem mais, Dan Brown, Paulo Coelho... E o que importa? Como dizia, o importante é que não morri mais. Desde a sua primeira carta, ando curioso, interessado demais pra morrer, por um simples motivo: não sei nada de você.

Além do nome, do Ana, do anagrama, quem seria você?

Pode ser ousadia, querer te decifrar em duas cartas, mas não acredito que você leia livros ruins, ou ouça música ruim. Imagino seu apartamento organizado, limpo. Te imagino confusa.

Li sua segunda carta me perguntando onde estava a agonia da primeira, onde foram parar os palavrões, o desespero de quem fez algo terrível. Onde andariam os seus pecados?

Ana tão discreta, Ana tão silenciosa, Ana tão misteriosa.

Proponho um jogo, levantaremos o véu. Já confessei um dos meus pecados e ainda não sei nada dos seus. A partir de agora a cada pergunta, a cada segredo revelado você me conta algo seu, só seu, que ninguém mais saiba. Algo que ficará só entre nós dois, Pedro e Ana, ilustres desconhecidos.

Não podemos perder tempo Ana, o tempo corre. Então lanço os dados, aperto start e o jogo começa.

Você se perguntou se eu já morri um pouco. Então eu te conto como foi, o que senti, como foi o dia em que realmente morri. Como foi o dia em que Lúcia me deixou.

O nome apareceu na tela do celular.

_Môr?
_Pê...

Foi assim, por telefone. Três anos de vida comum jogados no lixo, sem grandes explicações, sem nada. “Preciso de um tempo. Não ta dando mais”.

Quando cheguei em casa o armário estava mais vazio, a estante de livros mais vazia, o apartamento mais vazio. Vazio. Talvez seja essa a palavra que melhor resume a sensação de ser abandonado. Aliás, talvez o abandono aconteça em três etapas; antes de a pessoa te deixar, quando ela pode ou não sinalizar que tudo vai mal; o durante, quando ela dá alguma desculpa pra justificar o fato de que você já não tem mais graça, já não faz mais sentido; e o depois, quando você fica pensando em tudo que rolou durante todo o tempo em que vocês estiveram juntos, em tudo que foi bom, em tudo que deu errado, nas coisas que ela te disse e na resposta babaca que você deu. A melhor parte, na maioria das vezes, é a sua resposta babaca. Porque ela tende a ser tão babaca, mas tão babaca, que você fica dias pensando que poderia ter dito algo diferente. Quem sabe se eu tivesse dito um palavrão, se eu fosse menos previsível, se eu tivesse declamado um poema, se eu tivesse chorado, se eu tivesse, se eu tivesse, se eu tivesse... Quem sabe ela ficava? No meu caso eu simplesmente disse

_Ok.

E nunca mais nos falamos.

Impossível alguma palavra ser mais babaca que um “ok”. Ou talvez não. Eu, estúpido, achava que tudo andava bem. Aquele dia ela acordou cedo e me deu um beijo. Eu tinha uma reunião na editora. Discutiríamos agendas, projetos futuros e os malditos prazos. Lúcia sabia e tinha tudo planejado. Eu a imagino cronometrando meu percurso, enquanto eu entrava no elevador ela tirava as malas de cima do armário, enquanto eu ligava o carro ela separava os livros, enquanto eu parava no semáforo ela dobrava as roupas, antes mesmo de eu chegar na sala de reuniões ela já ligava para o táxi e enquanto eu fingia prestar atenção em tudo que diziam, ela já estava a caminho da casa de alguma amiga, dos pais, do amante.

Um amante? Será? Meus amigos, se é que poderiam ser chamados de amigos, me disseram: ela deve ter outro. Quando é assim, elas sempre têm. Tudo bem, pelo menos teria alguma explicação. Me pergunto se ela chorou, se sofreu. Imagino que sim, porque Lúcia é uma romântica. Acho que ela sofreria por reflexo, de tanto assistir comédias românticas. Meg Ryan, McDonald’s. Pois é. De tanto assistir a comédias românticas a pessoa se sente obrigada a sofrer, ao menos um pouquinho. Eu realmente espero que ela tenha sentido dores, convulsões, caído em prantos, tremido, suado, vomitado algumas vezes antes de fazer as malas e me deixar nesse inferno solitário e sem graça chamado “meu apartamento”. “Nosso apartamento” soava tão mais simpático... Se ao menos ela tivesse dado um sinal, alguma coisa, eu teria me preparado, talvez eu a deixasse e não o contrário. Talvez seria Lúcia quem ficaria por horas de pé na varanda, fumando um cigarro atrás do outro, ouvindo Cole Porter, tentando não chorar. Passei a noite inteira ali, devorando meus cigarros, até amanhecer, até o sol subir, até ficar de saco cheio e finalmente ir dormir pra acordar na cama vazia, tão mais... Morto?

O desafio está lançado, Ana.

Aguardo resposta em uma semana.

Beijos;

Pedro.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Carta - Capítulo 6

Intróito: uma confissão do autor
Esse nosso (meu, da Clara e seus) folhetim -bloguetim?- é uma surpresa constante pra todos os envolvidos porque, simplesmente, não existe roteiro. A Clara e eu escrevemos o que queremos sem que o outro seja consultado e é postado dessa forma, in natura. Por isso arregalei os olhos quando li o nome da personagem, "Ana". Eu já tive uma Ana em minha vida que, confesso, "já me fez morrer um pouco". Por isso é um nome que um personagem meu jamais teria. Embora em mim permaneça por ela um carinho grande, eu não quero que ela se leia nos meus escritos. Mas o texto e a personagem são da Clara e, assim, li com olhos novos, sem que Ana, Ana fosse.
E achei lindo.
Fica a certeza, nem todas as mortes são ruins.
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Seis - Ana
Sabe, suas palavras me fizeram morrer um pouco. Mas não se assuste. Nem todas as mortes são ruins.

Já morri algumas vezes pelas mais diversas causas. Talvez só tenha aprendido a viver quem admite uma morte ou outra. Pensei isso agora e me pareceu muito certo. Minhas mortes me fazem pensar, Pedro. E agora penso que gosto do seu nome porque é simples e ao mesmo tempo pesado. Duas sílabas que parecem feitas de chumbo, mas bonitas para se falar.

O meu é Ana. Uma coisa que gosto nele é que de trás pra frente a pronúncia não muda. É um nome que dá voltas nele mesmo, como um gato que brinca com o próprio rabo. É um nome pequeno, mas que não possui um início ou um fim. Ele todo é um círculo.

Mas voltando a você: seus pecados têm sim um tamanho. Não me cabe medi-los, mas posso dizer que apesar de caberem em uma página, eles foram além delas. Penso neles agora, e quando encontrar um cachorro, estranhamente lembrarei de você. E que engraçado! Você poderia estar parado ao meu lado que não poderia te reconhecer enquanto pensasse no seu segredo.

Pedro, as suas palavras me mataram um pouco, mais isso não se trata de mais um pecado seu. Ele é meu, agora. Como um padre que ouve uma confissão e não pode fazer mais nada a não ser compartilhá-lo.

Você disse uma coisa. Disse que na época achava que era feliz. E sabe, Pedro, eu tenho certeza que você era. Porque quando somos felizes, não ligamos muito para a morte. Talvez por isso você não tenha sentido pena. Porque sua felicidade te protegeu da sua consciência.

Às vezes tenho medo das pessoas felizes. Elas podem ser horríveis.

Pois bem, você era feliz, Pedro. Mas agora... agora não sei dizer. Talvez você também tenha morrido um pouco. Como eu, como o cachorro. Sua carta parece confessar isso – além do crime. Estou certa?

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Quando encontrei a tua carta, corri com o envelope nas mãos como quem foge do próprio corpo. Porque senti uma vergonha, mas uma vergonha muito honesta, como se houvesse cometido um crime bem intencionado (tenho certeza que eles existem aos montes). Mas ao mesmo tempo senti medo do que pudesse ler. E de fato, li uma coisa horrível, mas que me traz uma certeza de certa forma, bonita:

Todos nós morremos às vezes, Pedro. Eu, você, o cachorro... Mas ao contrário dele, continuamos estranhamente vivos. E não podemos nos esquecer disso.

Com os cumprimentos de uma pessoa que respira,

Ana